Por Jeffis Carvalho
Na tela em negro o que se ouve são apenas os sons da natureza, com destaque para ruídos de insetos e de pássaros. O som é cortado de forma abrupta e surge o nome do filme: Silêncio. Fusão para imagens de uma paisagem em que se vê um terreno acidentado com vapores que saem de várias termas. Estamos na década de 1630, durante o Período Edo no Japão. Guardas conduzem um padre que é obrigado a assistir à tortura de um religioso cristão com água fervente das termas.
Ao som do belíssimo intermezzo da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, os letreiros em fundo negro nos trazem a imagem em P&B e em câmera lenta de um boxeador. Como um balé, ele salta e desfere socos solitários, treinando e se preparando para a luta. Estamos na década de 1940 e em breve saberemos que o boxeador é Jake LaMota, o Touro Indomável.
Na tela em negro ouvimos fragmentos de uma fala. É o guitarrista e vocalista Rick Dank, do grupo The Band. A imagem que surge é de bolas sobre uma mesa de bilhar e ele lança o desafio. Em cortes rápidos vemos o taco atingir as bolas com precisão e velocidade. Corta para Rick e seus companheiros entrando no palco de um velho teatro de San Francisco. O líder do grupo, Robbie Robertson, anuncia ao público que aquele bis será a última canção do show. É começo de O Último Concerto de Rock.
O Japão do século XVII, a Nova York da década de 1940 e a San Francisco de 1978. Três épocas, três lugares e três filmes. Um épico profundo, e ao mesmo intimista, que discute fé, devoção, resignação e renúncia. Um drama contundente sobre a saga de um boxeador em sua trajetória como homem em permanente conflito consigo mesmo, e que arrasta todos a seu redor para um redemoinho de violência. Um documentário musical sobre o último concerto de rock de uma banda que acompanhou alguns dos maiores músicos rock, do blues, do soul e do country.
Silêncio, Touro Indomável e O Último Concerto de Rock compõem a nova coleção em cartaz na MUBI. Três dos grandes filmes de um dos maiores cineastas vivos, que completa 84 anos em novembro. Grande oportunidade de vê-los em casa.
Como destacam os curadores a MUBI:
“Existe algo que Martin Scorsese não consiga fazer? Prestes a completar 84 anos em novembro, o amado cineasta já demonstrou inúmeras vezes a surpreendente versatilidade de seu talento. Os filmes extraordinários que selecionamos para celebrar seu aniversário, realizados com rigor e devoção à arte, não poderiam ser mais diferentes entre si. Ainda assim, reconhecemos de imediato a assinatura do criador: no esmero de cada detalhe, na dedicação sincera ao ofício e na profunda reverência à linguagem cinematográfica.
Uma cápsula do tempo em tons quentes da Califórnia dos anos 1970, O Último Concerto de Rock (1978) registra a apresentação de despedida da banda The Band. Alternando imagens primorosas do concerto com entrevistas reflexivas, o filme nos aproxima dos dilemas que levaram os músicos a encerrar sua trajetória nos palcos. Mas, ao revelar as pressões da vida em turnê (“um jeito desgraçado e impossível de viver”), O Último Concerto de Rock não parece tão distante de Touro Indomável (1980). Também aqui, Scorsese se dedica a captar o ritmo singular de uma existência. Desta vez, é o jogo de pernas do boxeador Jake LaMotta, campeão dos pesos-médios, interpretado com intensidade visceral por Robert De Niro. Cortes abruptos atingem como socos na cara neste drama humano intenso que, mais do que reinventar o cinema de boxe, espanca o gênero até deixá-lo cheio de hematomas.
Da disciplina atlética à fé, a coleção avança três décadas e chega ao épico Silêncio (2016), estrelado por Adam Driver e Andrew Garfield como padres jesuítas no Japão do século 17. Os enquadramentos aéreos e a montagem pausada evocam uma existência marcada por um ritmo mais sereno, pela disciplina e pela convicção, abaladas profundamente pela dúvida diante da perseguição. Forte candidato a filme mais bonito da obra de Scorsese, Silêncio traz uma fotografia indicada ao Oscar® que faz reverência à arte do mestre japonês Kenji Mizoguchi. Feliz aniversário, Martin Scorsese: uma lenda viva e o maior cineasta norte-americano, cuja paixão pelo cinema permanece eternamente jovem.”
Os filmes podem ser vistos na MUBI: