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Dinheiro apreendido num flat do deputado Sóstenes Cavalcante

Quem é quem na rede de suspeitas que pesa sobre os deputados do PL investigados pelo STF

Há 10 meses
Atualizado sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a deflagração de uma operação da Polícia Federal que tem como alvos principais os deputados federais Carlos Jordy (PL-RJ) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). A decisão, assinada em 11 de dezembro de 2025, fundamenta-se em indícios de crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo o uso indevido de cotas parlamentares. A investigação aponta para um esquema de locação de veículos com empresas de fachada para desviar recursos públicos em benefício próprio e de assessores.

O núcleo político e os assessores

A investigação da Polícia Federal identificou movimentações financeiras milionárias e incompatíveis com os rendimentos dos assessores ligados aos parlamentares. No centro das apurações está Adailton Oliveira Santos, assessor especial vinculado à liderança do PL.

Segundo o relatório, Adailton movimentou mais de R$ 11,4 milhões entre créditos e débitos, com grande concentração nos anos de 2023 e 2024. Ele é apontado como peça-chave na negociação dos contratos de locação e na intermediação de pagamentos “por fora”.

Outro nome central é Itamar de Souza Santana, secretário parlamentar do deputado Carlos Jordy. As análises financeiras detectaram que Itamar movimentou cerca de R$ 5,9 milhões, valor considerado incompatível com sua capacidade econômica. Diálogos interceptados mostram Itamar cobrando pagamentos de locação e mencionando repasses em espécie diretamente ao deputado.

O papel da empresa de fachada

O esquema operava principalmente através da empresa Harue Locação de Veículos Ltda ME, que posteriormente alterou o nome para Alfa Auto Car. A Polícia Federal constatou que a empresa teria sido dissolvida irregularmente e não funciona no endereço fiscal declarado.

Mesmo com indícios de inatividade, a empresa continuou recebendo pagamentos mensais das cotas parlamentares de Jordy e Sóstenes. Entre janeiro de 2020 e abril de 2024, a empresa recebeu R$ 214.000,00 de Carlos Jordy e R$ 192.400,00 de Sóstenes Cavalcante. A frota da empresa era composta por apenas cinco veículos, número discrepante em relação a outras locadoras do Rio de Janeiro.

A rede de operadores financeiros

Além dos assessores diretos, a decisão detalha a participação de um núcleo familiar e terceiros que atuavam na movimentação dos recursos. Florenice de Souza Santana, familiar de Itamar, movimentou quase R$ 4 milhões, com diversas transações sem identificação de origem ou destino.

O grupo familiar “Souza Santana”, composto por Itamar, Acivânio e Florenice, é apontado como operador das movimentações suspeitas envolvendo a locadora. Outros investigados, como Daniel Alex Fortunato e Georgenor Cavalcante Pinto, aparecem realizando transferências fracionadas para dificultar o rastreamento.

A prática, conhecida como “smurfing”, envolvia depósitos em dinheiro vivo em valores inferiores a R$ 10 mil para evitar alertas automáticos dos bancos. Há registros de repasses financeiros entre os assessores e terceiros sem justificativa econômica aparente.

Diálogos revelam o modus operandi

A decisão do ministro Flávio Dino destaca conversas de WhatsApp que evidenciam o controle dos assessores sobre os contratos. Em um dos diálogos, Adailton discute com Itamar a renovação de contratos e sugere valores que seriam pagos “por fora” pelo deputado Sóstenes.

Também foram identificadas cobranças relativas a diferenças de valores de aluguel que deveriam ser acertadas com os parlamentares. Há indícios de que veículos alugados com verba pública eram utilizados por familiares dos deputados, como a filha de Sóstenes Cavalcante.

A redução de um contrato de locação no Rio de Janeiro teria servido para aumentar o repasse à empresa Harue, indicando manipulação dos valores.

As medidas autorizadas

Diante da gravidade dos fatos, o STF determinou a busca e apreensão em endereços ligados aos investigados no Rio de Janeiro e em Brasília. Foi autorizado também o afastamento do sigilo bancário e fiscal de todos os envolvidos no período de maio de 2018 a dezembro de 2024.

O objetivo é rastrear o destino final dos recursos e confirmar a hipótese de que o dinheiro das cotas retornava aos parlamentares e seus assessores. A decisão permite ainda o compartilhamento das provas colhidas com a Receita Federal para apuração de irregularidades fiscais.

O compartilhamento com a Advocacia-Geral da União (AGU), no entanto, foi indeferido neste momento para preservar o sigilo das investigações em curso. A Polícia Federal terá um prazo de 45 dias para a execução e análise das medidas cautelares deferidas.

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