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Empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro

Vorcaro fechou contrato com escritório de mulher de desembargador da “turma” de Nunes Marques

Há 2 meses
Atualizado terça-feira, 22 de setembro de 2026

Da Redação

Mensagens e documentos encontrados pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam um contrato entre o Banco Master e uma banca de advocacia comandada por Camila Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do TRF-1. Segundo a PF, o casal integrava um grupo próximo ao ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques, chamado internamente de “Turma do KN”.

O escritório da advogada firmou com o Banco Master um contrato milionário para atuar em ações bilionárias de precatórios, com honorários que poderiam ultrapassar R$ 400 milhões.

O contrato entre o banco e a advogada

De acordo com reportagem do Metrópoles, a Polícia Federal localizou uma minuta de prestação de serviços jurídicos assinada em março de 2024 entre o Banco Master e o escritório de Camilla Ramos. O documento tratava de processos judiciais que somavam R$ 8,5 bilhões, todos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro.

Pelas regras do contrato, o escritório receberia 5% líquidos sobre qualquer valor obtido nessas ações — o que, em caso de vitória total, resultaria em cerca de R$ 427 milhões em honorários.

Trocas de mensagens levantam suspeitas

As investigações mostram que, meses depois de fechado o contrato, Vorcaro chegou a enviar uma mensagem ao desembargador Newton Ramos lembrando de um julgamento de seu interesse marcado para o início de dezembro. Newton respondeu confirmando que estava ciente e que tudo estava “certo”.

Já em junho deste ano, a PF encontrou uma conversa em que Camilla Ramos comemorava com o banqueiro uma vitória obtida no Supremo Tribunal Federal em um dos processos de interesse do banco, citando explicitamente um voto favorável do ministro Nunes Marques. Na mesma troca, a advogada tentava agendar um encontro pessoal com o desembargador.

A chamada “Turma do KN”

Segundo a apuração, essa proximidade entre o casal e o ministro rendeu o apelido usado pela equipe de Vorcaro: “Turma do KN”, sigla associada ao nome de Kassio Nunes Marques. O termo aparecia com frequência nas conversas internas do banqueiro para se referir a pessoas próximas ao magistrado.

Em uma dessas mensagens, um funcionário responsável pelas viagens de Vorcaro relatou que “a turma do Newton” havia indicado seis convidados para um camarote pago pelo banqueiro durante o Carnaval carioca. Em outra ocasião, dias antes de o Banco Master ter sua venda ao BRB aprovada pelo Cade, uma assistente do banqueiro pediu uma diária promocional em um hotel de luxo para hospedar o próprio ministro Nunes Marques — pedido que Vorcaro autorizou prontamente.

Precatórios sob suspeita da Polícia Federal

Os precatórios negociados pelo Master são investigados porque teriam sido emitidos pela Justiça antes de as ações terminarem, quando a União ainda tinha o direito de recorrer. O banco adquiriu esses créditos em 2023 por meio de fundos de investimento hoje sob investigação na Operação Compliance Zero.

Precatórios são dívidas que o poder público precisa pagar depois de uma decisão judicial da qual não cabe mais recurso. Como a fila de pagamento pode levar anos, muitos credores vendem esses direitos no mercado financeiro por um valor menor do que o total devido — e é nesse mercado que instituições como o Master atuam, apostando no lucro futuro.

Mensagens citam filho de ministro do STF

Outra frente da investigação envolve o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó. Em outubro de 2024, ele avisou Vorcaro sobre uma vitória do banco em um processo sobre precatórios do setor de açúcar e álcool, mencionando que os votos favoráveis vieram dos ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques.

Na sequência da mesma conversa, Rennó compartilhou o contato de Kevin Marques, filho do ministro Nunes Marques. Meses depois, em julho de 2025, ele questionou Vorcaro sobre a manutenção de um pagamento mensal de R$ 500 mil relacionado a esse contato, e chegou a comentar, em tom de brincadeira, que o valor “já era”.

Consultoria ligada à família do ministro

Em agosto de 2025, Rennó enviou a Vorcaro uma lista de consultorias e escritórios ligados a autoridades, perguntando quais deveriam ser prioridade. Vorcaro citou nominalmente uma consultoria chamada Consult e o nome do ministro Ricardo Lewandowski. Dias depois, Rennó voltou a cobrar internamente o pagamento pendente à Consult, classificando-o como essencial.

Segundo a reportagem, a Consult pertence a um sócio do filho do ministro Nunes Marques e utiliza o mesmo endereço de e-mail de um instituto de pesquisa tributária controlado por Kevin Marques.

O que diz o ministro Nunes Marques

Procurado, o ministro Kassio Nunes Marques negou qualquer relação com o caso. Em nota, afirmou que nunca votou a favor de Vorcaro ou do Banco Master, nunca trocou mensagens com o banqueiro e nunca autorizou ninguém a falar em seu nome. Classificou como irresponsável associar sua atuação como ministro aos serviços prestados por familiares ou terceiros.

Sobre o processo da usina mencionado nas mensagens, o ministro explicou que estava inicialmente impedido de votar por ter atuado no caso como vice-presidente do TRF-1, mas obteve retificação ao entender que a matéria era uma tese jurídica ampla, aplicável a diversas empresas do setor — e não uma decisão específica sobre o Banco Master.

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