Da Redação
Imóvel de US$ 25,8 milhões foi repassado a Fabíola Vorcaro em acordo de divórcio; para a EFB Regimes Especiais, a operação foi uma forma de esconder bens dos credores
A EFB Regimes Especiais, responsável pela liquidação do Banco Master, entrou na Justiça dos Estados Unidos para desfazer a transferência de uma cobertura de luxo em Miami, avaliada em US$ 25,8 milhões (cerca de R$ 128 milhões), que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro passou para a ex-mulher, Fabíola de Almeida Macedo Vorcaro (com ele na foto), em janeiro de 2024. Segundo a liquidante, o repasse, justificado como parte da divisão de bens do divórcio, teria sido uma manobra para proteger o patrimônio de cobranças. A defesa de Vorcaro disse que não vai comentar o caso, e a de Fabíola não foi localizada.
O que a liquidante pede à Justiça americana
O pedido feito ao tribunal tem três objetivos principais. O primeiro é cancelar a transferência do imóvel para Fabíola. O segundo é devolver a propriedade à massa falida, que reúne os bens usados para pagar quem tem dinheiro a receber do banco. O terceiro é impedir, de forma imediata, que a cobertura seja vendida ou repassada enquanto o processo estiver em andamento.
A preocupação com uma possível venda tem motivo. Em março, corretores brasileiros divulgaram um vídeo em que ofereciam o imóvel por US$ 38 milhões, valor bem acima da avaliação citada no processo.
Vale explicar o papel da liquidante. Quando um banco quebra ou sofre intervenção, uma empresa é nomeada para administrar o que sobrou, localizar bens e tentar recuperar recursos para pagar os credores. É nessa função que a EFB atua no caso do Master.
Um apartamento que ocupa um andar inteiro
O imóvel, apelidado de “Palazzo del Cielo” (palácio do céu, em italiano), fica no 47º andar do edifício Acqualina, em Sunny Isles Beach. Ele resulta da junção de duas unidades duplex, a 4701 e a 4702, e ocupa o pavimento inteiro.
São cerca de mil metros quadrados, com teto de 9 metros de altura e vista para todos os lados, do Oceano Atlântico aos prédios de Miami. O apartamento tem móveis assinados por grifes como Fendi e Bentley, fogão sob medida da marca francesa La Cornue e uma piscina suspensa de 9 metros. O condomínio oferece ainda restaurantes renomados e um Rolls-Royce à disposição dos moradores.
A região é uma das mais caras da Flórida. Conhecida como “Riviera da Flórida”, Sunny Isles tem praias de areia branca e uma avenida à beira-mar, a Collins Avenue, tomada por torres residenciais de luxo ligadas a marcas como Porsche, Armani e Bentley.
Por que a transferência é considerada suspeita
Para a liquidante, o acordo de divórcio serviu apenas de fachada. A tese é que Vorcaro fez parecer que os imóveis pertenciam à ex-mulher, mas continuou sendo, na prática, o verdadeiro dono, o que blindaria os bens contra credores, investigações policiais e ordens de bloqueio.
A EFB aponta três indícios principais. Fabíola não pagou nada nem deu qualquer contrapartida pela cobertura. Além disso, o trust da família Vorcaro, uma espécie de estrutura usada para administrar e proteger patrimônio, seguiu bancando todas as despesas de manutenção dos apartamentos até as contas serem bloqueadas pela Justiça. Por fim, a ordem para a transferência partiu de um representante com procuração do próprio Vorcaro, enviada à administradora do trust, a Kodiak Trust. Para a liquidante, isso mostra que o controle da operação nunca saiu das mãos do ex-banqueiro.
Como funcionava a estrutura das empresas
O imóvel nunca esteve registrado diretamente em nome de Vorcaro ou de Fabíola. Segundo a liquidante, a cobertura foi comprada por uma empresa de fachada, a PH 47 LLC, que obteve o título de propriedade em 12 de julho de 2021. O nome faz referência ao imóvel: “PH” vem de penthouse (cobertura, em inglês) e “47” indica o andar.
Essa empresa, por sua vez, pertencia a uma holding chamada Arya Investments LLC. No divórcio, o que Vorcaro transferiu de graça para Fabíola não foi a escritura do apartamento, mas as cotas dessas duas empresas. Ao se tornar dona de 100% delas, Fabíola passou a ser a proprietária indireta da cobertura.
O caminho do dinheiro, segundo a investigação
A liquidante afirma ter comprovado que a compra foi feita com dinheiro desviado do Banco Master. Para isso, analisou extratos bancários, e-mails trocados entre executivos e documentos das empresas de fachada, reconstruindo passo a passo o trajeto dos recursos.
De acordo com esse levantamento, o dinheiro passou pelos fundos brasileiros Dublin FIDC e Viper FIM. O esquema descrito envolvia precatórios, que são dívidas do poder público reconhecidas pela Justiça e que podem ser negociadas. O fundo Dublin comprava esses títulos pagando cerca de 25% do valor original e, poucos dias depois, os revendia ao Banco Master como se valessem entre 70% e 75%. A diferença, segundo a liquidante, alimentava os desvios.