Por Jeffis Carvalho
As primeiras imagens não deixam dúvidas. Ali, naquele local houve uma batalha, ou quem sabe um incêndio. Ferros retorcidos, chão carbonizado. Em plano baixo, surgem passos em salto alto. Sim, são pés femininos que caminham naquele paisagem caótica, em meio a destroços. O tom é de um azul quase negro. Corta para o título: Cerco ao Palácio.
A cena seguinte abre mostrando, claro, um palácio e, no mesmo plano, surgem as costas de uma estátua, defronte ao prédio; vemos, então, um homem que caminha para subir as escadas a sua frente. Entramos com ele no Palácio da Justiça, em Bogotá, sede da Suprema Corte do país. Inevitável imaginar que aquelas cenas iniciais, em um cenário de destruição, são nesse prédio.
É a abertura da minissérie Cerco ao Palácio, uma produção colombiana para a Netflix, em 8 episódios, que estreou nesta sexta-feira, 6 de novembro, exatos 41 anos do dia em que o grupo guerrilheiro M-19 atacou o Poder Judiciário colombiano, matou seguranças, fez reféns e exigências. A resposta do Exército promoveu um dos mais trágicos episódios da história colombiana, com um saldo calculado de 94 mortos e desaparecidos (a foto é real).
Na primeira página da edição de 7 de novembro de 1985, com o título “Guerrilha ataca em Bogotá: 24 mortos”, o Estadão informou:
“Bogotá – Pelo menos 24 pessoas, entre guerrilheiros, civis e policiais, morreram ontem quando forças da polícia e do Exército invadiram o Palácio da Justiça, em Bogotá. Os guerrilheiros do M-19 haviam ocupado o prédio e tomado como reféns vários juízes. Eles exigiam a divulgação de um manifesto nos meios de comunicação e a cessão de uma hora diária nas rádios para ‘debater a questão da paz’. O presidente Belisario Betancur reuniu-se com seu ministério para discutir o caso e, em seguida, numa rápida ação, as forças de segurança intervieram com metralhadoras e tanques derrotando os guerrilheiros.”
O fato, narrado jornalisticamente, não dá conta do drama que se desenrola desde os preparativos da guerrilha, os personagens envolvidos – o presidente da Suprema Corte, a jornalista que acompanha o caso, o casal de guerrilheiros, os líderes, os comandantes do Exército e da polícia, até o simples garçom do restaurante do Palácio. Todos, ali, acabam sendo ou vítimas ou carrascos e, alguns, ambos ao mesmo tempo.
Desde as primeiras cenas, ainda que não saibamos o que vai acontecer, a minissérie trabalha o suspense de forma competente, mesmo com um narrativa por vezes demasiadamente lenta. O que acompanhamos, de forma atenta, é o desenrolar dos acontecimentos e percebemos a elaboração daquela triste crônica de uma tragédia anunciada.
O grande mérito da série é colocar o drama humano em primeiro plano. A ação contínua é fruto de um conflito de ideias, sonhos, desejos, ilusões, decepções, erros, quase nenhum acerto e, principalmente, avaliações equivocadas. Aliás, como é a própria vida. Por isso, a produção vai além do episódio em si. E, alternando a narrativa, mostra os acontecimentos posteriores, com a luta de mais de 20 anos por justiça.
Os 8 episódios da minissérie já estão disponíveis na Netflix. Em tempos de radicalização e extremismos, mais do que nunca precisamos aprender com a história.
Autor
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Jornalista há 45 anos, formado pela PUC de São Paulo. Foi diretor de Criação do Telecurso TEC da Fundação Roberto Marinho, roteirista do Programa Saia Justa, no GNT. É consultor, especializado em Branding e Comunicação Corporativa; pesquisador de cinema e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão.