Da Redação
O promotor Lincoln Gakiya e o procurador Mário Sarrubbo, duas das maiores autoridades brasileiras no enfrentamento ao crime organizado, avaliam que a decisão americana de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas vai, na prática, dificultar — e não facilitar — o combate às facções.
A análise foi concedida à coluna do jornalista Marcelo Godoy, do jornal O Estado de S. Paulo, e publicada na noite desta quinta-feira, 28.
Por que a decisão americana preocupa os especialistas
O raciocínio dos dois especialistas parte de um ponto central: ao elevar o nível de ameaça das facções ao patamar de terrorismo, o governo dos Estados Unidos retira o caso das mãos das agências policiais — a DEA (antidrogas) e o FBI (polícia federal) — e transfere a responsabilidade para a CIA e para as Forças Armadas americanas.
Essa mudança institucional tem consequências diretas para o Brasil. Gakiya, que é considerado a maior autoridade do país no combate ao PCC e já foi condenado à morte pela organização, explicou que mantém contato semanal com agentes da DEA e do FBI. Com a nova configuração, essa troca de informações simplesmente deixaria de existir.
A CIA não conversa — e isso é um problema grave
Sarrubbo foi ainda mais direto ao avaliar o impacto da mudança. Para ele, a CIA opera em lógica completamente diferente das agências policiais: não compartilha dados, não dialoga com outras forças de segurança e não colabora com investigações criminais convencionais.
Isso significa que o Brasil perderia um canal de cooperação que funcionava bem — e que já produziu resultados concretos. Foi justamente com apoio da DEA que, em 2020, o traficante Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, considerado o braço direito do líder do PCC, Marcola, foi preso em Moçambique.
Risco de operações militares americanas em solo brasileiro
Além da ruptura na cooperação policial, Gakiya apontou outro risco, ainda que mais remoto no momento: a legislação americana que embasa a classificação terrorista permite que a CIA e as Forças Armadas dos EUA realizem ações militares em qualquer parte do mundo para neutralizar a ameaça — o que, teoricamente, incluiria o Brasil.
Sarrubbo concordou com a avaliação e reforçou que a decisão americana deteriora o sistema de cooperação não apenas bilateral, mas também regional, afetando o diálogo entre forças policiais do Brasil e dos demais países da América Latina.
Impacto econômico também entra na conta
As consequências não se limitam à área da segurança pública. Sarrubbo lembrou que a medida cria dificuldades para empresas brasileiras que operam nos Estados Unidos, já que as sanções econômicas podem atingir qualquer pessoa ou organização suspeita de ter relações com as facções classificadas como terroristas — o que pode gerar insegurança jurídica e entravar negócios legítimos.
As sanções bloqueiam ativos e bens localizados em território americano e proíbem cidadãos dos EUA de realizar transações com indivíduos e grupos associados ao PCC e ao CV. O alcance prático dessas restrições ainda precisa ser avaliado com mais precisão.
Posição já era contrária em 2025
Não é a primeira vez que os dois especialistas se manifestam sobre o tema. Em 2025, tanto Gakiya quanto Sarrubbo já haviam se posicionado contra a proposta de classificar as facções como terroristas no Brasil, argumentando que a medida poderia criar conflitos jurídicos e, paradoxalmente, levar à impunidade de criminosos por conta de nulidades processuais.
A posição se mantém coerente agora diante da decisão americana: para eles, o enquadramento como terrorismo é mais um obstáculo do que uma solução no combate ao crime organizado.