Da Redação
Relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou quase R$ 20 milhões em transferências feitas pelo empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, e por pessoas ligadas à família do ex-banqueiro para a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte.
Os dados fazem parte do material relacionado às investigações sobre o Banco Master e vieram a público após a retirada do sigilo de documentos no Supremo Tribunal Federal (STF). As operações consideradas atípicas foram comunicadas ao Coaf pela instituição financeira.
No período analisado, entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, a conta da igreja movimentou R$ 57,1 milhões — cerca de R$ 28,5 milhões em créditos e R$ 28,6 milhões em débitos. O volume chamou a atenção porque o faturamento anual presumido informado ao banco era de aproximadamente R$ 950 mil.
Cunhado transferiu R$ 19,2 milhões
A maior parte dos recursos identificados entre os remetentes foi transferida por Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e ex-pastor da Lagoinha Belvedere. Segundo o relatório, foram 26 operações que, juntas, alcançaram aproximadamente R$ 19,2 milhões.
Zettel também aparece nos registros bancários como procurador ou representante da igreja. Ele é casado com uma irmã de Daniel Vorcaro e já entrou no radar das investigações relacionadas ao Banco Master.
Os documentos não apontam, por si só, que as transferências constituam crime. Relatórios do Coaf são instrumentos de inteligência destinados a registrar e comunicar movimentações consideradas suspeitas ou incompatíveis com os dados disponíveis sobre os envolvidos.
Pai e ex-mulher de Vorcaro aparecem no relatório
Além de Zettel, o Coaf identificou transferências feitas por Fabíola de Almeida Macedo Vorcaro, ex-mulher de Daniel Vorcaro. Foram sete operações, que totalizaram aproximadamente R$ 101,6 mil.
Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro, aparece como responsável por outras quatro transferências, no total de R$ 120 mil. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, também consta do levantamento, com 11 operações que somaram R$ 22 mil.
Considerados esses repasses e os realizados por Zettel, o montante chega a aproximadamente R$ 19,45 milhões. O valor representa parcela expressiva dos R$ 28,5 milhões que ingressaram na conta da igreja durante o período examinado.
Conta movimentou R$ 57,1 milhões
Outro ponto destacado no relatório é a proximidade entre o total de recursos que entrou e o que deixou a conta: R$ 28,5 milhões em créditos e R$ 28,6 milhões em débitos, alcançando movimentação global de R$ 57,1 milhões.
Entre os destinatários dos pagamentos aparecem empresas ligadas a setores como construção, engenharia, estruturas metálicas, instalações e produção de eventos. A Lagoinha informou que o templo passou por obras no período abrangido pelo levantamento.
A Lagoinha Global afirmou ainda que os valores movimentados não correspondiam apenas a dízimos e ofertas e disse desconhecer a dimensão das operações financeiras realizadas pela unidade Belvedere. A defesa de Zettel, procurada pela imprensa, não apresentou manifestação sobre os repasses.
Relatório está na investigação do Master
O relatório foi encaminhado à Polícia Federal e passou a integrar o conjunto de informações analisadas nas investigações relacionadas ao Banco Master. A retirada do sigilo de documentos pelo ministro André Mendonça, do STF, permitiu que detalhes das movimentações se tornassem públicos.
A PF também demonstrou interesse em aprofundar informações financeiras que não teriam sido integralmente apresentadas nos relatórios por envolverem autoridades com prerrogativa de foro. Essa frente integra a apuração mais ampla das relações financeiras investigadas no caso Master.
Até o momento, as informações do Coaf revelam movimentações classificadas como atípicas e seus respectivos remetentes e destinatários. A identificação dessas operações não equivale a uma conclusão sobre sua origem ilícita nem, isoladamente, comprova a prática de crime pelos envolvidos.