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Silêncio que fala alto na 6ª caminhada e diz presente

Há 7 meses
Atualizado segunda-feira, 30 de março de 2026

Da Redação

A dois dias de mais um 31 de março, centenas de pessoas percorreram as ruas da zona sul de São Paulo neste domingo (29) em memória das vítimas da ditadura militar brasileira (1964-1985) e para denunciar que a violência de estado não ficou no passado. A 6ª Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado começou diante do antigo prédio do DOI-Codi, na rua Tutóia, um dos principais locais de repressão e tortura do regime, e terminou no Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, dentro do Parque Ibirapuera.

O evento foi organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio, iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, com apoio de mais de 30 organizações da sociedade civil.

Do passado ao presente: por que ainda é preciso caminhar

O tema deste ano — “aprender com o passado para construir o futuro” — resume o espírito do ato: não se trata apenas de recordar crimes históricos, mas de apontar como padrões de violência institucional persistem décadas depois do fim da ditadura.

A coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues, explicou que a ditadura costuma ser tratada como um capítulo encerrado, quando na verdade seus efeitos ainda se fazem sentir. “A gente tem que pensar um pouco sobre a construção dessa democracia, porque como está hoje não é suficiente, não é igualitária para uma parte significativa da população”, afirmou.

Ela também chamou atenção para as 49 recomendações da Comissão Nacional da Verdade, que, segundo ela, seguem amplamente descumpridas. O instituto monitora o cumprimento dessas recomendações a cada dois anos e o que se observa, segundo Lorrane, são avanços pequenos e insuficientes diante do que a sociedade precisa.

Uma marcha que nasceu da ameaça ao estado democrático

O diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sotilli, lembrou que a Caminhada do Silêncio surgiu como resposta coletiva ao ressurgimento de discursos autoritários e às tentativas de apagamento da história. Para ele, a herança de impunidade deixada pela ditadura alimenta diretamente a violência de estado que o Brasil ainda enfrenta.

“Temos vivido tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições”, disse Sotilli, acrescentando que o momento exige que a sociedade volte a ocupar as ruas e demonstrar sua força.

Neste ano, os movimentos também destacaram a possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos que envolvam crimes permanentes, como a ocultação de cadáver — um ponto central para quem reivindica responsabilização dos agentes da ditadura.

Manifesto e nomes que não devem ser esquecidos

Perto do encerramento, a organização leu o manifesto da caminhada, que convoca novas gerações, a sociedade civil e as instituições a escolherem entre esquecer ou lembrar, entre repetir ou transformar. O texto afirma que “sem memória, a violência se naturaliza; sem verdade, a mentira se institucionaliza; e sem justiça, a barbárie se repete”.

Em seguida, foram lidos em voz alta os nomes das vítimas da ditadura e de pessoas que sofreram violência de estado nos dias atuais. Após cada nome, os presentes respondiam em coro: “presente” — um gesto simbólico de recusa ao esquecimento e de afirmação de que essas histórias seguem vivas.

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