Por Jeffis Carvalho
Neste sábado, 11 de abril, às 16h30, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo(Osesp) apresenta um programa que é, ao mesmo tempo, um concerto e uma meditação. Sob a batuta do regente francês Fabien Gabel — em sua primeira passagem pela América Latina —, o concerto raro reúne Wagner, Tchaikovsky, Debussy e Strauss numa tarde sobre paixões que o mundo não comporta, o amor que não encontra lugar no mundo.
O tema Amores impossíveis não é apenas um título bonito. É uma chave de leitura. Wagner, Tchaikovsky, Debussy e Strauss partem de histórias diferentes, usam linguagens musicais distintas, mas chegam a uma mesma pergunta: o que acontece quando amar não basta?
E a transmissão ao vivo pelo canal da Osesp no YouTube garante que ninguém precise ficar de fora.
Wagner: o acorde que não se resolve é como o desejo que não se satisfaz
A abertura do concerto pertence a Richard Wagner, com o Prelúdio e Morte de amor de Tristão e Isolda. A ópera, estreada em Munique em 1865, narra o amor proibido entre o cavaleiro Tristão e a princesa Isolda, prometida a outro homem. Eles bebem, por engano, uma poção mágica — mas Wagner sugere que o amor já estava lá, esperando permissão para existir.
O que torna a obra revolucionária não é só o enredo trágico. É uma sequência de quatro notas no primeiro compasso: o chamado acorde de Tristão. Na música tonal clássica, toda tensão harmônica pede resolução. Esse acorde a nega. Ele suspende o ouvinte num estado de anseio que demora quatro horas de música para encontrar alívio — espelhando, com precisão cirúrgica, a angústia de dois amantes que desejam o que não podem ter.
A morte, em Wagner, não é derrota. É quase uma porta. O que a vida recusa, a eternidade vai permitir. E a música, ao final, se resolve — como se os dois amantes finalmente pudessem se amar por se torna um só. O acorde de Tristão abriu caminho para a música moderna do século XX e influenciou desde Debussy e Strauss até o jazz e as trilhas de cinema.
Tchaikovsky: a paixão que virou concerto
Entre as óperas, o violinista sueco Daniel Lozakovich assume a frente do palco para interpretar o Concerto para violino em Ré maior, Op. 35, de Tchaikovsky. A obra foi composta em 1878, num período de intensa renovação pessoal do compositor — logo após um casamento conturbado. A inspiração veio da convivência com o jovem violinista Iossik Kotek, por quem Tchaikovsky estava apaixonado.
O concerto estrutura-se em três movimentos. O primeiro apresenta um dos temas mais reconhecíveis de Tchaikovsky — nobre, expansivo, inesquecível. A Canzonetta central oferece um respiro lírico de rara beleza, quase uma canção sem palavras. O Finale irrompe com energia eslava e ritmos que remetem à música folclórica russa.
A estreia, em Viena em 1881, foi recebida com frieza pela crítica — o influente Eduard Hanslick chegou a escrever que a música “exalava mau cheiro”. O tempo, como costuma fazer com as grandes obras, tratou de desmentir esse julgamento. Hoje, o concerto é um dos mais gravados do repertório, e qualquer performance bem-sucedida é tratada como acontecimento.
Debussy: o amor que não ousa dizer o próprio nome
Se Wagner grita, Debussy sussurra. Pelléas et Mélisande, ópera de 1902, acompanha um amor que quase não sabe que existe. Pelléas e Mélisande não se declaram em voz alta. Amam-se nos olhares, nos silêncios, nos pequenos gestos O marido traído, Golaud, destrói o que havia entre eles. Mélisande morre como viveu: misteriosa, sem confessar nada.
A inovação de Debussy está na recusa das convenções. Enquanto a ópera tradicional sublinha emoções com força — heróis proclamando amor, vilões com temas sombrios —, ele fez o oposto. A música recua para o silêncio. Acordes que não resolvem, temas que aparecem e somem como sombras, uma orquestra que não conta o que os personagens sentem, mas insinua, sugere, deixa em aberto.
O resultado é uma ópera que funciona como um conto onírico, um sonho em que nada é explicado — e justamente por isso tudo ressoa. Debussy chamava isso de “a música do inexprimível”. Com Pelléas, ele inventou uma linguagem sonora nova, etérea, radicalmente moderna. O amor que não consegue ser dito é destruído não pelo excesso, mas pela fragilidade — tão etéreo que o mundo real simplesmente o apaga.
Strauss: a renúncia como forma mais alta de amar
O encerramento cabe a Richard Strauss, com a Fantasia sinfônica sobre “A mulher sem sombra”, de 1919 — considerada uma das óperas mais ambiciosas de sua carreira. Aqui, o amor não é impossível por ser proibido. É impossível porque está incompleto.
A protagonista é uma imperatriz que ama o marido, mas não tem sombra — símbolo da humanidade, da capacidade de gerar vida, de sofrer de verdade. Sem ela, não pode ter filhos. Sem ser inteiramente humana, o amor não pode ser inteiramente real. A solução existia: comprar a sombra de outra mulher. Mas ao preço do sofrimento alheio. A imperatriz recusa. E é exatamente nessa recusa que ela se torna humana de verdade.
Strauss compôs uma partitura de temas condutores que funcionam como um código secreto: cada motivo identifica um personagem, uma emoção, uma ideia. A música transita entre timbres etéreos, quase sobrenaturais, e texturas quentes e percussivas do mundo humano — mostrando, em sons, a distância que a personagem precisa cruzar. No momento em que ela recusa a sombra comprada pelo sofrimento alheio, a orquestra explode num dos instantes mais tocantes de toda a história da ópera.
A grande pergunta de Strauss inverte a lógica de todas as outras obras do programa: e se o caminho para o amor não for a posse, mas a renúncia? A música não responde em palavras. Ela simplesmente transforma a filosofia em emoção — e entrega ao ouvinte a resposta no peito.
O concerto acontece neste sábado, 11 de abril, às 16h30. Transmissão ao vivo pelo canal da Osesp no YouTube.