Da Redacão
O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou à Polícia Federal que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), determinou pessoalmente que ele estruturasse a venda de uma participação do banco público ao Banco Master. A orientação teria sido dada durante um jantar na residência do banqueiro Daniel Vorcaro, em Brasília, em 24 de setembro de 2024. Ibaneis nega ter ordenado a negociação.
O relato foi prestado à PF em 15 de outubro e revelado nesta quinta-feira (29) pelo Estadão e pelo Metrópoles. Segundo o depoimento, a operação envolveria aproximadamente 16,5% das ações do BRB pertencentes ao Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev). A declaração passou a integrar a investigação sobre as operações financeiras entre as duas instituições.
Governador teria invocado decisão do acionista
Paulo Henrique contou aos investigadores que estava em Salvador quando foi convocado pelo gabinete do governador para participar de um jantar na casa de Vorcaro. Na reunião, que teria contado com aproximadamente sete pessoas, Ibaneis determinou que fossem iniciados os estudos para a venda da participação acionária.
Segundo o ex-presidente, ele se surpreendeu com a orientação e procurou o governador no dia seguinte para manifestar sua discordância. Ibaneis teria respondido que a negociação representava uma decisão do acionista, referência ao governo do Distrito Federal, controlador do BRB.
O depoimento também aponta que Vorcaro pretendia obter influência sobre o controle do banco público, apesar da participação minoritária prevista. Para isso, teria solicitado a elaboração de um acordo de acionistas que lhe assegurasse poderes na administração da instituição.
Negociação previa holding e imóveis de luxo
Conforme revelou a Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (30), Paulo Henrique afirmou que chegou a ser elaborada uma minuta para a criação de uma holding financeira envolvendo o BRB e o Master. Pela proposta, ele deixaria a presidência do banco público para comandar a nova estrutura.
O ex-presidente também apresentou explicações sobre imóveis de alto padrão relacionados à investigação. Segundo seu relato, a eventual mudança para São Paulo, necessária para assumir a holding, teria sido condicionada à disponibilização de uma residência.
A Polícia Federal investiga, entretanto, se seis imóveis de luxo constituíram vantagens indevidas relacionadas à aquisição, pelo BRB, de carteiras de crédito supostamente fraudulentas do Master. A operação envolvendo a venda de ações deve ser distinguida da posterior tentativa de aquisição do Master pelo BRB, rejeitada pelo Banco Central em setembro de 2025.
PF indicia 15 e Ibaneis nega determinação
Em relatório parcial encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, no âmbito do Inquérito 5.026, sob relatoria do ministro André Mendonça, a Polícia Federal indiciou 15 investigados, entre eles Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro. A investigação apura suspeitas de gestão fraudulenta, organização criminosa, lavagem de dinheiro e outros delitos financeiros.
Segundo a PF, as operações entre BRB e Master envolveram aproximadamente R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito, das quais R$ 12,2 bilhões foram apontados como irregulares. A corporação solicitou mais 60 dias para concluir perícias e diligências complementares. O depoimento sobre o jantar não representa, por si só, comprovação de participação criminosa do ex-governador.
A defesa de Ibaneis Rocha afirmou que ele jamais determinou a abertura de negociações com o Master e sustentou que Paulo Henrique Costa possuía autonomia técnica e administrativa para conduzir as operações do BRB. O ex-governador não figura entre os 15 indiciados anunciados pela PF nessa etapa da investigação.