Por Jeffis Carvalho
Foi meu amigo Leandro Oliveira, maestro e pianista, quem me deu a dica, em forma de lembrete: a Netflix tem em seu catálogo atual cinco documentários do mestre Eduardo Coutinho. Imediatamente decidi que isso merece, claro, uma coluna. Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de rever, ou até mesmo descobrir, porque Coutinho é considerado o maior documentarista da história do cinema brasileiro. Não é para menos.
Um condutor de conversas
Eduardo Coutinho (1933–2014) não filmava documentários. Ele conduzia conversas. Com uma câmera discreta, um microfone e uma paciência quase monástica, o cineasta paulistano passou décadas ouvindo o Brasil, coletando histórias de operários, moradores de prédios e de favelas, idosos em corredores de clínicas, jovens diante de um futuro incerto. O resultado é uma obra que redefiniu o que o documentário pode ser.
Agora, quando a Netflix disponibiliza cinco títulos fundamentais de sua filmografia, temos uma chance rara de acessar, em uma só plataforma, décadas de escuta e de arte. Uma obra que continua a surpreender e a emocionar quem a descobre pela primeira vez.
Como um artista sempre sintonizado com seu tempo e com uma necessidade contínua de investigar, com perspicácia e singeleza, com apuro e humildade, com ética e estética, Coutinho não busca a verdade oculta por trás das pessoas. Ele acredita no que está na superfície — no que alguém escolhe dizer, no momento em que decide falar. E isso fez e faz toda a diferença;
Os cinco títulos disponíveis
Edifício Master (2002) Durante uma semana, Coutinho entrevistou moradores de um prédio residencial em Copacabana. Dentro de um mesmo endereço, dezenas de universos distintos — solidão, memória, rotina e sonho comprimidos em apartamentos de padrão médio. Um dos documentários mais aclamados do cinema brasileiro.
Santo Forte (1999) Em uma favela do Rio de Janeiro, moradores descrevem suas experiências com entidades, santos e visões. A religiosidade popular brasileira — em toda a sua diversidade e sincretismo — é tratada com respeito absoluto e fascínio genuíno. Um filme sobre fé como linguagem do cotidiano.
Últimas Conversas (2015) Lançado postumamente, o filme registra conversas com jovens estudantes de escolas públicas. Coutinho pergunta sobre sonhos, medos e o presente. O resultado é um retrato franco e comovente de uma geração — e o testamento final de um cineasta que nunca parou de ouvir.
Jogo de Cena (2007) Mulheres reais contam suas histórias. Depois, atrizes profissionais reencenam os mesmos relatos. O filme embaralha propositalmente realidade e representação, levantando questões sobre o que é “verdadeiro” em qualquer depoimento — e sobre o que o cinema faz com a vida das pessoas.
As Canções (2011) Pessoas comuns descrevem músicas que marcaram suas vidas — e o que elas significam. A canção vira pretexto para a memória afetiva, para o luto, para o amor que ficou. Um dos filmes mais acessíveis de Coutinho, e também um dos mais emocionalmente ricos.
O excepcional no ordinário
Tão diferentes em tema e forma, esses cinco filmes têm em comum o método, que Coutinho sempre fez questão de conceber quase como um mantra: a crença de que qualquer pessoa, diante de uma câmera atenta, tem algo extraordinário a dizer. Por isso, Coutinho não busca personagens excepcionais. Busca a excepcionalidade no ordinário.
Assistir à sua obra hoje, mais de uma década após sua morte, é constatar que ela não envelheceu. O Brasil que ele filmou — sua fé, sua pobreza, seu humor, sua dor, sua música — permanece reconhecível. E permanece, também, a pergunta implícita em cada plano: você está ouvindo?
A obra-prima de Coutinho, e para muitos o maior documentário do nosso cinema, “Cabra Marcado para Morrer” (1984), costuma estar disponível no Globoplay.