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Agronegócio brasileiro enfrenta alta de pedidos de recuperação judicial

Há 6 meses
Atualizado terça-feira, 7 de outubro de 2025

Por Jeffis Carvalho

O agronegócio brasileiro vem enfrentando uma onda significativa de pedidos de recuperação judicial nos últimos dois anos, refletindo um cenário de múltiplas pressões sobre o setor. Essa tendência representa um contraste marcante com a imagem tradicional do agronegócio como motor da economia nacional.

Em 2024, o setor registrou 1.272 pedidos de recuperação judicial, um salto de 138% em relação aos 534 pedidos de 2023, segundo dados da Serasa Experian. A situação se agrava em 2025: apenas no primeiro trimestre, houve aumento de 38% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Entre os produtores rurais pessoa física, o cenário é ainda mais dramático, com crescimento de 350% nos pedidos – saltando de 127 em 2023 para 566 em 2024.

A crise resulta da convergência de múltiplos fatores: juros elevados, queda nos preços das commodities, custos de produção em alta e adversidades climáticas severas, expondo fragilidades na gestão financeira e na estrutura de financiamento do setor.

A tempestade perfeita que derrubou as margens

Essa escalada dos pedidos de recuperação judicial ganha contornos de preocupação quando comprime drasticamente as margens dos produtores. A manutenção da taxa Selic em patamares elevados aumentou significativamente o custo do crédito, dificultando a rolagem de dívidas e comprometendo a liquidez do setor. Simultaneamente, os insumos agrícolas ficaram mais caros devido à inflação e à desvalorização cambial, pressionando os custos de produção.

O golpe mais duro veio da correção nos preços das commodities. Após o boom de 2021-2022, quando os preços internacionais dispararam, o mercado passou por uma correção significativa que pegou muitos produtores endividados e alavancados. A combinação de receitas menores com custos elevados tornou insustentável a operação de diversos empreendimentos rurais, especialmente para aqueles que haviam se alavancado durante o período de vacas gordas.

Clima adverso amplifica a crise

As adversidades climáticas funcionaram como catalisador da crise financeira. O ano de 2024 foi marcado por uma histórica quebra na safra de grãos que afetou até produtores de Mato Grosso, estado que havia colhido safra recorde de soja e milho em 2023. O Rio Grande do Sul, em particular, sofreu perdas relevantes devido aos desbalanceamentos climáticos. Produtores que já enfrentavam margens apertadas viram suas dificuldades se multiplicarem com as perdas na produção, tornando impossível honrar compromissos financeiros assumidos.

Soja e setor sucroenergético lideram pedidos

Entre as culturas agrícolas, a soja concentrou o maior número de pedidos de recuperação judicial em 2024. Segundo dados da Serasa Experian, os pedidos relacionados à oleaginosa subiram de 53 para 59 entre produtores pessoa física. Considerando produtores pessoa jurídica, o cultivo de soja registrou 222 pedidos, seguido pela criação de bovinos com 75 pedidos, cultivo de cereais com 49, cultivo de café com 16 e cultivo de algodão com 10 pedidos. Geograficamente, Mato Grosso e Goiás foram os estados mais demandantes.

O setor sucroenergético enfrenta uma crise estrutural de longa data que se aprofunda. Conforme levantamento da RPA Consultoria, atualmente 107 usinas estão em situação de recuperação judicial ou falência – sendo 79 usinas em recuperação judicial, das quais 32 com atividades paralisadas, e 28 com falência decretada. Isso representa 24% de todas as usinas do país. A crise teve origem no cenário de preços elevados para o etanol e oferta de crédito com juros baixos, seguido pela crise do subprime em 2008, secas fortes que prejudicaram a safra de cana e a política de preços artificialmente controlados pelo governo Dilma Rousseff entre 2011 e 2016.

O caso mais emblemático e de maior repercussão foi o da AgroGalaxy, distribuidora de insumos agrícolas que protocolou pedido de recuperação judicial em 18 de setembro de 2024. A empresa acumulava dívidas de aproximadamente R$ 4,1 bilhões, distribuídas entre R$ 830 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), R$ 990 milhões com bancos, R$ 1,5 bilhão com fornecedores e R$ 55 milhões de fusões e aquisições.

Para tentar sobreviver, a empresa fechou metade das lojas, demitiu 40% dos funcionários e saiu de três estados, operando hoje com 65 lojas em comparação com cerca de 130 unidades no auge. A recuperação judicial da AgroGalaxy teve efeito cascata, afetando CRAs detidos por vários Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) e gerando desvalorizações de até 12% em uma única semana nessa classe de ativos.

Mercado financeiro sente o impacto

A onda de recuperações judiciais abala os fundos de investimento ligados ao agronegócio. Os CRAs e os Fiagros passam por momento de baixa, com o mercado testando a robustez das garantias dessas operações. A insegurança afasta investidores que antes viam o setor como porto seguro. Cooperativas de crédito, fundos de investimentos e fornecedores de insumos enxergam a recuperação judicial como uma ruptura do pacto de confiança que sustenta o agronegócio, o que compromete tanto investimentos estrangeiros quanto o mercado de antecipação de recebíveis.

Contexto e perspectivas preocupantes

É importante dimensionar que existem mais de 1,4 milhão de agentes econômicos que obtiveram crédito para atuação no setor. Portanto, o número absoluto de pedidos, embora alto, é proporcionalmente pequeno. A recuperação judicial, vale lembrar, apresenta bom funcionamento na maioria das vezes em situações de crises de liquidez, permitindo que empresas viáveis se reestruturem. Porém, trata-se de um mecanismo caro, complexo e longo, que também gera conflitos com credores e dificulta o acesso a novos recursos.

Especialistas alertam que o quadro permanece em deterioração.  A manutenção das taxas de juros elevadas, as dificuldades na renegociação de dívidas e as incertezas relacionadas ao clima devem manter a pressão sobre produtores. A situação exige resposta coordenada de produtores, com profissionalização da gestão; instituições financeiras, com instrumentos de crédito mais adequados; governo, com políticas de apoio e seguro rural robusto; e do sistema judiciário, com processos mais ágeis.

Sem ajustes estruturais, o setor pode enfrentar consolidação acelerada, com concentração de mercado e perda de produtores de médio porte, alterando significativamente o perfil do agronegócio brasileiro.

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