Da redação
O ministro das Relações Exteriores, embaixador Mauro Vieira, classificou como injustificada a decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar tarifas de 25% contra produtos brasileiros, anunciada na noite de 15 de julho. Em declaração à imprensa nesta quinta-feira (16/7), o chanceler afirmou que as investigações da Seção 301 sobre o Brasil são procedimentos unilaterais do governo americano e não encontram amparo em fatos concretos.
Segundo Vieira, o governo brasileiro mantém negociações com os Estados Unidos desde março de 2025, muito antes do chamado “tarifaço” original, anunciado em 2 de abril do ano passado. Ao todo, foram realizadas mais de 30 reuniões presenciais, virtuais ou por telefone em níveis presidencial, ministerial e técnico, incluindo 11 contatos apenas com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e o secretário de Estado, Marco Rubio.
Tarifas subiram após carta de Trump a Lula
O ministro relembrou que, em 2 de abril de 2025, antes do anúncio das tarifas, ele próprio manteve chamada telefônica com Greer, ocasião em que o Brasil foi tarifado em 10%, o menor patamar aplicado pelos Estados Unidos a qualquer país. A situação mudou após carta enviada pelo presidente Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 9 de julho de 2025, quando as tarifas foram elevadas a 50% — decisão que, segundo Vieira, teve motivação política e representou tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro.
De acordo com o chanceler, foi justamente nessa carta, em que Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50% caso o processo contra o ex-presidente não fosse interrompido, que partiu a instrução para a abertura da investigação sob a Seção 301 contra o país.
Chanceler classifica declarações de Rubio como “inaceitáveis”
Vieira classificou como inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiro as declarações do secretário de Estado Marco Rubio, divulgadas nas redes sociais na madrugada desta quinta-feira sobre as tarifas aplicadas ao Brasil. Segundo o ministro, Rubio atacou de forma grosseira o chefe de Estado de um país amigo.
Para o chanceler, o que incomoda o governo americano é o fato de o Brasil não ter cedido a demandas consideradas desmedidas durante as negociações, como a exigência de abertura total e exclusiva de setores inteiros da economia brasileira aos Estados Unidos, sem contrapartidas para os produtos do Brasil — o que, na avaliação de Vieira, equivaleria a uma capitulação.
Brasil cita superávit comercial americano e participação na investigação
O ministro destacou que os Estados Unidos acumularam US$ 424 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos e que, em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos americanos importados pelo Brasil.
Apesar da motivação política atribuída à investigação, o governo brasileiro participou ativamente do processo desde sua abertura, em 15 de julho de 2025, apresentando duas defesas escritas ao Escritório de Comércio dos Estados Unidos, em agosto e setembro daquele ano, além de reunião de consultas governamentais em Washington, em abril de 2026.
Ministro rebate acusações sobre Pix e desmatamento
Vieira também classificou como descabidas as alegações americanas sobre o Pix, sistema de pagamentos criado pelo Banco Central e disponível a todas as instituições financeiras que atuam no país, negando que a ferramenta gere competição desleal. O chanceler ainda rebateu acusações sobre desmatamento, afirmando que o Brasil reduziu significativamente o desmatamento na Amazônia e no cerrado desde 2022, e concluiu que nenhuma das justificativas apresentadas pelos Estados Unidos tem lastro na realidade.