Por Jeffis Carvalho
Na parede da memória, a lembrança que dói menos – parafraseando Belchior – é o quadro dos meus passos solitários que embalo ao som de Start me Over, do álbum Tatoou You, dos Rolling Stones, de 1981. O poderoso som dos já quase quarentões ingleses que na humilde opinião deste jornalista é a maior banda de rock da história – é a trilha sonora de muitos da minha geração, que é a segunda ou terceira que ouve a voz inconfundível de Mick Jagger, os rifs geniais na guitarra de Keith Richards, o baixo de Bill Wyman, a guitarra de Ron Wood e a batida única de Charlie Watts.
Meu corpo se agita mais uma vez, e daí o quadro que cintila naquela parede ser uma lembrança que mexe com todos os sentidos. Aos 67 anos sei que não sou Mick Jagger e me contento em balançar sem me levantar da poltrona ao som do mais novo álbum dos Rolling Stones, Foreign Tongues, lançado nos streamings de música neste 10 de julho. Um título perfeito para uma inspirada leva de novas canções de Jagger/Richards que talvez brinque com a língua – a logomarca da banda – e, ao mesmo tempo, passeia pela abrangência de suas influências em outros idiomas musicais em total reciprocidade.
Logo na primeira faixa, Rough And Twisted, temos o desafio/convite me forma de pergunta: É, por que você não me leva/ Por essa estrada áspera e sinuosa?/ Por que você não me guia/ Porque eu não sei para onde ir /Promete me levar… Tudo como sempre, tudo como sempre deve ser. Aquele momento de reflexão, de busca e, ao mesmo tempo, de uma batida, de um ritmo que há mais de 60 anos embala gerações.
E, desta vez, esperamos apenas três anos desde a última leva de canções inéditas. O novo álbum dos The Rolling Stones é composto por 14 temas – 12 originais, uma versão de “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse, e uma outra de “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry.
Na mesma parede da memória, o quadro que cintila é também o de uma polêmica e uma resposta contundente em forma de canção em português. Em 1981, quando Tatoou You foi lançado a revista Time, num daqueles seus momentos em que o veículo se quer mais importante que a notícia decretou que os Rolling Stones estavam ultrapassados, decadentes. Como se o mensageiro foi mais do que a própria mensagem decretou que a banda inglesa não cabia mais no mundo da Time.
A resposta por aqui, em terras brasileiras, venho por meio de Caetano Veloso em sua inspiradíssimo álbum Cores, Nomes, também de 1981. Na canção Ele me deu um beijo na boca, Caetano escreveu e cantou os versos definitivos:
E a crítica que não toque na poesia
O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones
Já não cabem no mundo
Do Time Magazine
Mas eu digo, ele disse
O que já não cabe é o Time Magazine
No mundo dos Rollings Stones Forever Rockin
And rolling
Percebem por que no quadro da memória essa lembrança é a que dói menos. Muito pelo contrário, aliás… E ela vem à tona exatamente quando ouço o novo e 25º álbum da maior banda de rock. Um álbum que se dá ao luxo de ter em uma das faixas o baixo especialíssimo do gênio Paul McCartney (Covered In You); em Never Wanna Lose You a participação do jovem Bruno Mars tocando Cowbell (sino da vaca), e na faixa Hit Me In The Head, a última bateria do único e essencial Charlie Watts, o stones morto aos 80 em 2021.
Corram, façam como eu, e ouçam Foreign Tounges, com The Rolling Stones: https://open.spotify.com/intl-pt/album/6jfU2DEetUUo8nmxrzwkhc?si=mp4TTEY5RKa0L3nddmB77Q