Por Jeffis Carvalho
Em setembro do ano passado, o algoritmo do Spotify me fez descobrir o imenso talento da cantora, compositora e atriz Juliana Linhares. Na ocasião, escrevi que “foi numa dessas recentes manhãs de trabalho remoto, com o Spotify rodando no modo descoberta semanal, que uma voz me fez parar tudo o que estava fazendo. Não era apenas a qualidade vocal – embora fosse impressionante –, mas algo na forma como ela conduzia a melodia, como se estivesse contando uma história íntima para a sala toda, mas sussurrando só no meu ouvido”.
E concluía: “Balanceiro”, “dizia o nome da faixa. Juliana Linhares, o nome da artista. Nordeste, a geografia que emanava de cada verso. Já tinha ouvido falar dessa cantora, mas nunca a tinha escutado, e ali estava eu, já adicionando a música às minhas playlists antes mesmo dela terminar”.
Corta.
Maio de 2026. A cantora, compositora, diretora e atriz potiguar Juliana Linhares lança o segundo álbum: Até Cansar o Cansaço, obra que chega ao público como uma “resposta sensível e criativa a um sentimento contemporâneo de exaustão coletiva”, como escreveu um crítico.
A ironia é que o mesmo algoritmo que me indicou a cantora e compositora é hoje, também, o ícone maior da força que nos leva a essa mesmo à exaustão, ao cansaço, canalizados, banalizados e vitaminados pela inteligência artificial. A mesmo IA que parece permear a reflexão presente em todo esse novo trabalho de Juliana Linhares.
Mais do que nunca trata-se de uma viagem sonora por ritmos nordestinos e sertanejos. Sempre com toques urbanos, arranjos com instrumentos acústicos mesclados com toques eletrônicos, o que torna absolutamente tudo essencialmente contemporâneo. Das 11 faixas, 7 são composições suas com parceiros e quatro são gravações e regravações de outros artistas.
Juliana, que também assina a direção criativa geral, reforça sua atuação múltipla entre música e cena. Ela mesmo conta que o processo de criação foi atravessado por experiências que viveu em diálogo com o neurocientista Sidarta Ribeiro, durante uma residência na Cia Brasileira de Teatro.
O cansaço
Mas ao ouvir o álbum, fui levado a pensar na ideia mesmo de “sociedade do cansaço” o conceito criado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Ele descreve “a atual era em que, paradoxalmente, a liberdade de não ter necessariamente patrões gerou uma autoexploração intensa. A pressão constante por produtividade e sucesso faz com que os indivíduos se cobrem excessivamente, levando ao esgotamento, ao cansaço.
Já o filósofo brasileiro Wilson Ferreira aponta que “a IA se tornou o “zeitgeist” (o espírito do tempo) da Sociedade do Cansaço. A capacidade cognitiva e criativa é incorporada nas máquinas, expropriando o conhecimento acumulado pelo trabalhador. Resta ao indivíduo tentar se diferenciar no mercado tratando a si mesmo como uma “marca” em constante encenação e otimização, gerando exaustão, ansiedade e a síndrome de burnout”.
Ferreira conclui que em uma sociedade hiper conectada onde a IA acelera o tempo, o espaço para o ócio criativo — aquele momento em que a mente descansa e divaga — é eliminado. Desse modo, todo o tempo livre passa a ser visto como uma oportunidade “desperdiçada” que poderia ser usada para produzir, otimizar tarefas ou aprender a dominar uma nova ferramenta de IA, aprofundando o esgotamento da mente.
Juliana parece ter entendido isso artisticamente. Nos versos iniciais da canção Até cansar o cansaço, que dá título ao álbum ela canta:
Vamos dançar/Até cansar o cansaço/Até que vire do avesso/Até um novo começo
Quanto mais eu corro, menos sei pra onde vou/O tempo é ouro e no entanto já passou/ E eu me vejo inerte, afundada no scroll/Lançam outra bomba e eu entrando no meu show
E afirma, sem rodeios: Vamos dançar/Até cansar o cansaço/Até que vire do avesso/
Até um novo começo/
Nas outras faixas, ela nos dá o caminho possível de restauração ou criação de um novo tempo “lá depois do breu/ depois da nuvem de trovão/Um fio de luz você transforma num clarão/Encosta enfim/Me lembra o bem que faz sonhar.
E com toda loucura dessa sociedade exausta, que se vive “tanto buliço mas eu não saio do tom”. E a receita, pode até ser simples, como “comida que não enjoa, viagem que não tem mala” porque “tem grito que não ecoa, silêncio que as vezes fala… Ainda que a gente encontre “no emaranhado da rede medida deveras drástica/Alguém que matasse a sede com um gole de soda cáustica”
Para o colorido sonoro da proposta, Juliana soube dividir o protagonismo com participações mais do que especiais em duetos com Ney Matogrosso, Anastácia e Agnes Nunes.
E trouxe de volta, com sua mensagem mais atual do que nunca, um clássico de Belchior. Na penúltima faixa do disco, em versão bem roqueira, na toada de uma rock-balada, ela canta A Palo Seco: “E eu quero é que esse canto torto corte feito faca” tem a força de um grito de rebeldia e o frescor de saber reagir.
Para tudo terminar em uma convocação, um chamamento, ainda que eivado de ternura e esperança na bela Futuro (Novos Erros) + Oração pro Sonho:
“Vai revirar o mundo todo e não vai encontrar/Uma pista, uma reposta, uma palavra pra rimar/Não existem profecias e nem linhas pra cruzar/Estou propondo novos erros pra gente se acertar”.
Ouça o álbum no Spotify:
E veja o clip da canção que dá título ao álbum: