Por Jeffis Carvalho
“Nunca estive tão esperançoso quanto ao futuro da democracia.” Com esta afirmação, cientista político alemão Marcel Dirsus inicia a introdução de seu livro Como os tiranos caem e como as nações sobrevivem, publicado em 2024. Logo em seguida, o autor faz a ressalva, “é verdade que esta não é a época mais propícia para ser um otimista”.
Esperança e pessimismo diante das ditaduras
Para Dirsus, embora os ditadores transmitam uma imagem de poder absoluto, sua queda costuma ser impulsionada por vulnerabilidades que se acumulam silenciosamente: a insatisfação das elites, a pressão dos movimentos populares e as contradições do próprio regime. A tese central é que a tirania carrega em si os germes de sua própria destruição — ao semear desconfiança e fabricar adversários, os líderes autoritários constroem sistemas intrinsecamente instáveis, sempre à beira do colapso por meio de golpes, revoluções ou atos de violência direta.
Dez anos ouvindo quem viveu a queda de regimes
Aliando rigor acadêmico a testemunhos em primeira mão de pessoas diretamente envolvidas na queda de regimes autoritários, o autor dá ênfase nos mecanismos concretos que levam ao fim das autocracias. Ao longo de mais de dez anos dedicados ao estudo de déspotas — investigando tanto as bases de sua permanência no poder quanto as causas de sua derrocada —, o cientista político ouviu diplomatas, jornalistas, dissidentes, ativistas de direitos humanos e agentes de inteligência.
Suas conclusões apontam para três eixos centrais. O primeiro aponta a fragilidade disfarçada de força. Ou seja, apesar da aparência de solidez, muitas ditaduras são estruturalmente frágeis e podem desmoronar de forma surpreendentemente rápida.
Os três eixos que explicam o fim das autocracias
O segundo eixo faz uma anatomia da tirania, com a análise percorrendo diferentes modelos autoritários — ditaduras pessoais, militares e de partido único. E examina como cada um responde, ou falha em responder, às ameaças à sua continuidade.
Finalmente, o terceiro aborda o papel ambíguo da pressão externa para constatar que a influência estrangeira raramente produz efeitos lineares. Mesmo porque embora certas formas de pressão consigam desestabilizar regimes, a intervenção externa também pode desencadear consequências imprevisíveis e, não raro, violentas.
O medo que corrói o poder por dentro
Dirsus constata que compreender como as tiranias chegam ao fim exige olhar além da aparente solidez dos regimes autoritários. Segundo ele, ditadores raramente são tão seguros quanto demonstram: por trás da fachada de controle absoluto existe um medo constante de ser deposto, o que os leva a investir enormes esforços em mecanismos de proteção contra golpes e na vigilância de seus próprios aliados.
Paradoxalmente, as ameaças mais perigosas costumam vir de dentro. O círculo íntimo, as elites militares e os serviços de inteligência representam riscos muito maiores do que a oposição popular aberta. Ainda assim, os movimentos de massa têm um poder real e mensurável: a pesquisadora Erica Chenoweth descobriu que quando 3,5% da população participa ativamente de protestos, esses movimentos tendem a ser bem-sucedidos — um limiar surpreendentemente baixo que transforma a mobilização civil em uma ameaça concreta ao regime.
Repressão, praças e o colapso do regime
A resposta repressiva, no entanto, pode sair pela culatra. Ordenar que as forças de segurança atirem contra manifestantes, destaca Dirsus, é uma aposta arriscada: em vez de sufocar a resistência, essa decisão frequentemente a intensifica e corrói o apoio que ainda resta ao ditador. A dimensão geográfica também importa, pois os protestos tendem a se concentrar nos grandes centros urbanos, tornando o controle de espaços simbólicos — como a Praça Tahrir no Cairo ou o Maidan em Kiev — decisivo para a sobrevivência ou queda do regime.
Quando um regime finalmente desmorona, os desafios não terminam — eles se transformam. A queda de uma tirania não garante a chegada da democracia; o vácuo de poder pode resultar em caos, guerra civil ou simplesmente na ascensão de um novo homem forte.
Entre o exílio e o caixão: a armadilha final do ditador
Essa transição frágil exige atenção e preparação deliberada. Agravando esse cenário, os próprios ditadores muitas vezes se recusam a negociar uma saída porque enfrentam um dilema sem saída: o medo de serem processados os faz se agarrar ao poder até o fim, tornando a escolha entre o exílio e o caixão uma das poucas perspectivas que enxergam diante de si.
Como os tiranos caem e como as nações sobrevivem, Marcel Dirsus, Tradução: Clovis Marques, Editora Rocco /233 páginas, R$ 85,00