Por Hylda Cavalcanti
Está grande a expectativa, por parte de historiadores, profissionais vinculados à área de Direitos Humanos, juristas, advogados, familiares do ex-presidente Juscelino Kubitschek e políticos de um modo geral. Isto porque, faltando poucos meses para completar 50 anos de sua morte, vários relatórios apresentam contradições. Alguns, com técnicos e peritos de credibilidade, ressaltam que tudo não passou de um acidente. Outros insistem na teoria de que se tratou de um atentado.
Diante de tantas dúvidas, com a retomada da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que tinha sido extinta no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e foi recriada no Governo Lula, o colegiado resolveu fazer uma nova investigação cruzando todos os dados e até adicionando documentos novos.
Nova apuração, novas conclusões
O caso voltou a ser objeto de debate depois que a atual composição da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) encaminhou à família do ex-presidente o novo relatório. JK faleceu em um desastre na Via Dutra (BR-116), que liga São Paulo ao Rio de Janeiro), em 22 de agosto de 1976.
Conselheira relatora do caso, a historiadora Maria Cecília Adão concluiu que o ex-presidente e o motorista dele, Geraldo Ribeiro, não foram vítimas de um acidente — versão oficial do regime militar —, e sim de um possível atentado.
Segundo o parecer que está em análise pelos demais conselheiros da comissão, houve uma “ação externa” que provocou a saída do veículo da pista e a posterior colisão com uma carreta que trafegava no sentido contrário.
Versão anterior foi de acidente
Inquérito policial aberto após a tragédia apontou que o motorista de JK perdeu o controle do veículo ao tentar ultrapassar um ônibus de carreira da Viação Cometa, que fazia a ligação entre as duas capitais. Mas a relatora afirmou que “não há nada na documentação analisada que sustente a versão da ditadura”.
O motorista do ônibus, por exemplo, sempre negou as conclusões da polícia. Ele, inclusive, chegou a enfrentar processo na Justiça, acusado de ser o principal responsável pelo “acidente” e foi absolvido, por falta de provas.
“Verdade histórica”, diz neta
Para a neta de JK e presidente do Memorial em homenagem ao ex-presidente, Anna Cristina Kubitschek, a família nunca acreditou na narrativa de acidente. Ela afirmou que a reabertura do debate sobre a morte do avô “representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil”.
O relatório de Maria Cecília Adão foi apresentado em 1º de abril, após trabalhar “de forma articulada com pesquisadores do tema”, segundo explicação da comissão. E ainda terá de ser votado por todos os seus integrantes para ser considerado um documento oficial.
O parecer tem como base documentos coletados pelas comissões estaduais da Verdade de Minas Gerais e de São Paulo e no inquérito do Ministério Público Federal (MPF) aberto em 2013 para investigar a morte do ex-presidente.
Sessão de análise não foi marcada
A sessão de análise e votação do relatório — que tem mais de 5 mil páginas — ainda não foi marcada. O colegiado é vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e composto por sete membros. As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são aprovadas por maioria simples.
O pedido de reabertura das investigações foi feito pelo ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo Gilberto Natalini e pelo jornalista Ivo Patarra, logo após a reinstalação da comissão especial, em 2023.
— Com Agências de Notícias