Da Redação
Levantamento do Projeto Confia mostra que a maioria das fake news eleitorais mira o equipamento de votação; confiança dos brasileiros caiu de 82% para 53%
As urnas eletrônicas completaram 30 anos nesta quarta-feira, 13, carregando uma contradição: ao mesmo tempo em que consolidaram um sistema de apuração rápida e reconhecida internacionalmente, tornaram-se o principal alvo de desinformação nas eleições brasileiras. É o que aponta um estudo do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia.
O levantamento analisou mais de 3 mil conteúdos publicados durante as eleições de 2022 e 2024. Desse total, 716 mensagens passaram por análise aprofundada — e mais de 45% continham ataques diretos ao funcionamento das urnas.
Urna na mira
Entre as mentiras mais comuns identificadas pela pesquisa estão mensagens que alegavam atraso proposital no botão “confirma” ou que afirmavam que o equipamento completaria automaticamente os números digitados pelo eleitor. Nenhuma das afirmações tem respaldo técnico.
Na sequência das fake news mais frequentes aparecem conteúdos contra o Supremo Tribunal Federal e outras autoridades (27,1%), teorias sobre fraudes na apuração dos votos (21,8%) e desinformação sobre regras e logística eleitoral (15,4%).
O que facilita a circulação das mentiras
Para Helena Salvador, coordenadora do Projeto Confia, o problema central é a distância entre o eleitor e a máquina. Como o contato acontece apenas uma vez a cada dois anos, no domingo de votação, qualquer história inventada sobre um botão ou uma tela encontra pouco obstáculo para se espalhar.
Segundo ela, as narrativas falsas costumam se apoiar em explicações com aparência técnica para sugerir falhas e possibilidades de manipulação. Elementos do cotidiano do voto — as teclas, as mensagens na tela — são usados para gerar estranhamento e alimentar dúvidas em quem não conhece o sistema por dentro.
Confiança em queda
Os dados sobre a percepção pública reforçam a preocupação. Uma pesquisa Quaest divulgada em fevereiro de 2026 indica que 53% dos brasileiros dizem confiar nas urnas eletrônicas. Em 2022, o índice medido pelo Datafolha a pedido do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) era de 82% — uma queda de quase 30 pontos percentuais em quatro anos.
A desconfiança é maior entre pessoas de 35 a 50 anos: metade dessa faixa etária afirma não acreditar no sistema. Entre jovens de 16 a 34 anos, a confiança chega a 57%. Já entre os eleitores com 60 anos ou mais, o índice fica em 53% — número que os pesquisadores associam à memória do voto em papel, anterior a 1996.
O objetivo para 2026
O estudo do Projeto Confia foi elaborado com foco nas eleições deste ano. A ideia, segundo Helena Salvador, é identificar com precisão os pontos em que a desconfiança se instala para construir respostas rápidas e eficazes quando novos ataques surgirem.
A coordenadora defende que tornar o caminho do voto mais compreensível para o eleitor comum — desde o momento em que a tecla é pressionada até a totalização dos resultados — é a estratégia mais eficiente contra a desinformação sofisticada que circula nas redes.
O Pacto pela Democracia é uma coalizão de mais de 200 organizações da sociedade civil dedicada à defesa do Estado Democrático de Direito e ao combate à desinformação eleitoral.