Da Redação
Deputados anunciaram pedido de CPI, denúncia à PF e requerimento à Receita Federal após reportagem revelar negociação entre o senador e Daniel Vorcaro
Uma reportagem do site The Intercept Brasil veio a público nesta quarta-feira, 13, com áudios e mensagens que mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, cobrando pagamentos do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O valor negociado seria de aproximadamente R$ 134 milhões.
Vorcaro foi detido pela primeira vez um dia antes de o Banco Central decretar a liquidação do Banco Master, e voltou a ser preso em março deste ano. Desde então, permanece encarcerado sob a suspeita de liderar uma organização criminosa dedicada a fraudes financeiras. De acordo com o Intercept, as conversas entre os dois teriam ocorrido poucos dias antes da primeira prisão.
O que dizem os áudios
Nos registros de áudio obtidos pela reportagem do Intercept, Flávio fala abertamente sobre atrasos nos pagamentos e sobre a pressão que isso gerava na produção do filme, que estava sendo realizado no exterior com atores e equipe estrangeiros.
“Está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, está todo mundo tenso”, disse o senador em um dos trechos. Nas mensagens de WhatsApp, Flávio se refere a Vorcaro como “irmão” e chega a escrever que estaria “sempre” ao lado do banqueiro.
Como o dinheiro teria circulado
Segundo os documentos e comprovantes bancários analisados pelo Intercept, parte do valor teria sido transferida entre fevereiro e maio de 2025. O caminho do dinheiro passaria por uma empresa controlada por Vorcaro, que teria feito transferências internacionais para um fundo nos Estados Unidos gerido por Paulo Calixto — advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
Essa rota financeira chamou a atenção dos deputados governistas que reagiram à reportagem. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), questionou se os recursos foram declarados e tributados corretamente, e anunciou o envio de um requerimento formal à Receita Federal com essas perguntas.
Deputados pedem CPI e investigação criminal
Parlamentares do PT, PSOL e PCdoB se reuniram para anunciar uma série de medidas. Além do requerimento à Receita, o grupo prometeu apresentar denúncia à Polícia Federal pedindo a abertura de inquérito, e também protocolar um pedido de CPI para apurar a relação entre Flávio e Vorcaro.
O deputado Tarcísio Motta (PSOL-RJ) listou quatro possíveis crimes na negociação: lavagem de dinheiro, corrupção passiva, tráfico de influência e financiamento eleitoral ilegal. Já a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) comparou o orçamento do suposto filme com o de produções brasileiras premiadas — e questionou a real destinação do dinheiro. “O Ainda Estou Aqui não passou de R$ 50 milhões. O Agente Secreto custou R$ 28 milhões. Para o bolso de quem foi esse dinheiro?”, disse ela.
O que diz Flávio Bolsonaro
Em nota divulgada após a repercussão, o senador confirmou tanto o pedido de patrocínio quanto a relação com Vorcaro, mas defendeu que tudo se trata de uma iniciativa privada, sem dinheiro público envolvido.
Flávio disse que conheceu o banqueiro apenas em dezembro de 2024, quando “não existiam acusações nem suspeitas públicas” contra ele. Segundo o senador, o contato foi retomado depois que os pagamentos atrasaram. Ele negou ter oferecido qualquer vantagem em troca do apoio financeiro e disse não ter intermediado negócios do banqueiro nem recebido benefício pessoal.