Por Jeffis Carvalho
Mais uma vez um 5 de julho está no caminho da nossa seleção. O de 1982, em plena Copa da Espanha, no estádio famoso pelo nome de Sarriá, em Barcelona, testemunhou a maior tragédia do futebol brasileiro desde 1950. Uma das mais talentosas gerações do nosso futebol – Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior, Oscar, Leandro, Luizinho, Éder, entre outros – caiu diante da Itália de Paolo Rossi. Uma geração de ouro que não foi campeã mundial.
Agora, no Estádio Nova York/Nova Jersey, mais uma geração brasileira sem mundial decide sua sorte, na caminhada rumo ao hexa, diante da Noruega, uma seleção que jamais vencemos.
A memória de 1982, ainda tão presente para mim e, também, para sempre na lembrança da antológica capa do Jornal da Tarde, sem nenhuma manchete, só com a foto de um garoto de 10 anos com o seu choro contido simbolizando a tristeza de um país inteiro. O letreiro? Apenas “Barcelona, 5 de julho”.
Que este novo 5 de julho seja em tudo diferente e nos mande direto para as quartas-de-final.
De volta a 1982, então com quase 24 anos, me vejo também como aquele jovem jornalista que acha, sinceramente, que no futebol tudo é exagerado, histriônico, com narrações, comentários, reportagens e crônicas a um passo da quase histeria. Nessa fase da vida, quando a juventude grita suas certezas absolutas, sou surpreendido pelo texto de um dos meus escritores favoritos, convidado por um jornal espanhol, a ser um cronista especial da Copa da Espanha: o peruano Mario Vargas Llosa.
Com o Nobel de Literatura, aprendo uma lição de como se deve observar o mundo com os olhos do afeto para o material observado e escrutinado. E, por meio deles, perceber que muitas vezes julgamos e sentenciamos algo sem nos dar conta de sua realidade forjada em fatos mas, principalmente, em paixões.
Atuando na Copa de 1982 como cronista esportivo do jornal espanhol ABC, Vargas Llosa defende em seus textos que o futebol pede sim o exagero na narração e na crônica, pois isso cria uma mitologia e confere uma dimensão mágica e quase épica à experiência humana.
Para o autor, o esporte não deve ser resumido a um mero relato mecânico ou tático, mas sim tratado como uma forma de literatura popular. A exaltação dos lances, o drama, a tragédia da derrota e a emoção do gol justificam a paixão do narrador, elevando uma simples partida a um espetáculo cultural e de forte apelo emocional.
Não à toa, a relação entre literatura, crônica e o mundial de 1982 é frequentemente explorada em análises sobre como a imprensa traduziu a magia daquela Copa. E algo semelhante continuamos testemunhando em 2026, com as hipérboles de Evaristo Marques e colegas na Globo; do ainda insistente Galvão Bueno, que exagera nos discursos no SBT; e da equipe da Cazé TV, com alguns gritando um pouco além da conta para os ouvidos deste colunista, mas que se resigna ao ensinamento de Llosa. A novidade: mulheres narrando e comentando.
O que Mario Vargas Llosa escreveria sobre o que teria visto até agora na Copa 2026?
Recorro à IA (por que não?) e elaboro um prompt simples: escreva uma crônica no estilo do escritor Mario Vargas Llosa – em seus textos na Copa de 1982 na Espanha – sobre a fase 16 avos da Copa do Mundo 2026.
Claro, é apenas um exercício cujo resultado fica muito aquém do talento e genialidade de um dos maiores autores do Século XX. Mas o tom e o estilo de alguma forma se fazem presentes.
Confira:
A Multidão e o Milagre: notas sobre os dezesseis avos
Uma crônica por IA
Há um momento, em toda Copa do Mundo, em que o torneio deixa de ser um calendário de resultados e se converte naquilo que sempre foi: uma vasta encenação da condição humana, disputada por vinte e dois homens sob os olhos de bilhões. Escrevo após assistir ao nascimento de uma fase nova no calendário do futebol — os dezesseis avos de final —, criatura burocrática que a FIFA inventou para acomodar quarenta e oito seleções e que, contra as previsões dos que a acusavam de artificial, revelou-se um teatro tão intenso quanto qualquer final histórica.
Confesso que cheguei a este torneio com a desconfiança de quem já viu demais. Em 1982, na Espanha, eu acreditava, com uma ingenuidade que hoje me comove, que o futebol podia ser lido como um romance. Passaram-se décadas, vi o jogo tornar-se indústria, espetáculo global. E, no entanto, aqui estou de novo, sentindo o mesmo arrepio antigo diante de um gol nos acréscimos.
Foi assim que vi o Canadá vencer a África do Sul por um a zero, gol tardio que devolveu a um país anfitrião, ainda incrédulo da própria grandeza, a sensação de que a história também pode ser generosa com os que nunca foram protagonistas dela.
Mas o futebol, como a boa literatura, não se contenta em consolar; também precisa ferir. Feriu, com requinte trágico, a Alemanha, que a Europa ensinou o mundo a temer pela frieza calculada. Empatou com o Paraguai e caiu nos pênaltis — para muitos sempre a loteria cruel que reduz décadas de tradição a onze metros e um segundo de hesitação.
Do outro lado do quadro, o Brasil sofreu diante do Japão, ficou atrás no placar, viu pairar o fantasma da eliminação precoce, até que Casemiro e Gabriel Martinelli viraram para dois a um. Há algo essencialmente latino-americano nessa forma de vencer: sofrer primeiro, triunfar depois.
E houve Marrocos, que voltou a humilhar as certezas europeias. Empatou com a Holanda, avançou nos pênaltis, e confirmou a verdadeira notícia deste Mundial ampliado: a distância entre os grandes e os pequenos diminuiu. O alargamento para quarenta e oito seleções, que tantos críticos receberam com ceticismo, produziu um drama que os formatos elitistas jamais permitiram.
Não caio, porém, na ingenuidade contrária. A FIFA não multiplicou seleções por amor à democracia, mas ao mercado. E no entanto há uma ironia bela nisso: às vezes as instituições mais cínicas produzem, sem querer, momentos de autêntica beleza popular.
Assisto a esta Copa como assisti à de 1982: observando, ao mesmo tempo, o mais fútil e o mais sério dos rituais humanos. Fútil, porque no fim é apenas uma bola entrando ou não numa rede. Sério, porque nessa bola se concentram as esperanças de nações inteiras, o orgulho ferido de impérios em declínio, a alegria de povos que raramente têm motivo para comemorar juntos.
Resta saber o que a bola — essa deusa cega e caprichosa — reserva para as oitavas. Mas já aprendi que a única certeza do futebol é a incerteza; e é por isso que voltamos a ele como se voltássemos a uma paixão da qual já deveríamos ter nos curado.