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Brasil vai aos EUA para tentar barrar tarifaço de Trump

Há 4 meses
Atualizado segunda-feira, 6 de julho de 2026

Da Redação

Representantes da indústria e do agronegócio do Brasil participam hoje, 6, e amanhã, 7, de audiências públicas nos Estados Unidos para defender que a sobretaxa de 25% anunciada pelo governo de Donald Trump não tem justificativa e prejudicaria empresas dos dois países.

Os encontros, organizados pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), são a etapa final antes da decisão americana sobre o tema, esperada para 15 de julho.

O que está em jogo nas audiências

As audiências fazem parte de uma investigação comercial baseada na Seção 301 da legislação dos Estados Unidos, mecanismo usado para apurar práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano. É nesse espaço que empresas, associações setoriais e governos podem apresentar seus argumentos antes de o USTR recomendar, ou não, a aplicação de tarifas adicionais.

Do lado brasileiro, participam entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de representantes de setores como café, mel, arroz, etanol de milho, ferro-gusa, madeira e calçados. Paralelamente, equipes técnicas dos dois países devem se reunir ainda esta semana para preparar uma última rodada de negociação antes do prazo final.

Números que mostram o tamanho do impacto

Segundo levantamento da CNI, se a tarifa entrar em vigor, mais de 30% das exportações brasileiras para os Estados Unidos passariam a pagar uma taxa combinada de 37,5%, somando a sobretaxa de 25% a outra penalidade de 12,5% relacionada a uma acusação de falhas no combate ao trabalho forçado no país. No total, a entidade estima que mais da metade de tudo o que o Brasil vende aos americanos ficaria sujeita a algum tipo de tarifa extra, somando essa medida às que já existem desde a Seção 232.

Para o setor industrial paulista, os produtos mais afetados seriam justamente os de maior valor agregado, como máquinas, autopeças, alimentos processados e móveis. É por isso que a Fiesp vai argumentar que a tarifa não tem base técnica nem econômica sólida.

A defesa da indústria brasileira

O presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Azevêdo, afirmou que pretende mostrar que o Brasil não pratica nada discriminatório ou ilegal segundo as regras internacionais de comércio. Segundo ele, “essa tarifa não faz sentido do ponto de vista econômico” e tende apenas a encarecer as cadeias produtivas e os preços ao consumidor nos dois países.

A CNI segue linha parecida. Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da entidade, disse que não existem provas de que empresas americanas sejam tratadas de forma desigual no Brasil e reforçou que a maior dificuldade do setor privado hoje é a imprevisibilidade causada pelas mudanças constantes na política comercial dos Estados Unidos.

Máquinas e siderurgia pedem tratamento especial

A Abimaq, que representa fabricantes de máquinas e equipamentos, vai pedir a exclusão total do setor da tarifa. O argumento principal é que grande parte do comércio entre Brasil e Estados Unidos nessa área acontece dentro do mesmo grupo econômico — ou seja, entre uma matriz americana e sua filial brasileira. Segundo a entidade, cerca de 82% dessas exportações seguem esse modelo, o que tornaria a substituição de fornecedores praticamente inviável no curto prazo, já que envolve equipamentos sob medida e processos longos de certificação.

Já o setor de ferro-gusa, representado pelo sindicato mineiro Sindifer, argumenta que o insumo é essencial para as siderúrgicas americanas e não tem relação alguma com os temas que motivaram a investigação dos Estados Unidos. Quase todo o ferro-gusa exportado pelo Brasil tem como destino o mercado americano.

Agronegócio também entra na disputa

No campo, entidades como CNA, Cecafé, Unica, Abiarroz e a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel vão levar aos Estados Unidos o argumento de que a tarifa pode elevar preços ao consumidor americano e pressionar a inflação por lá também. A CNA, que representa mais de 5 milhões de produtores rurais, sustenta que os acordos comerciais do Brasil com países como México e Índia seguem as regras da Organização Mundial do Comércio e não prejudicam os interesses americanos.

A entidade também rebate a ligação entre crescimento do agronegócio e desmatamento, citando que a produção de grãos cresceu mais de 200% entre 2005 e 2026, período em que o desmatamento na Amazônia caiu quase 80%. Como alternativa à tarifa, a CNA defende reforçar a cooperação entre os dois países em áreas como agricultura sustentável e biocombustíveis.

O que vem a seguir

Na última quarta-feira (1º), o governo brasileiro enviou uma resposta formal ao USTR sobre a investigação, assinada pelo chanceler Mauro Vieira, argumentando que críticas americanas a temas como o Pix e decisões do Supremo Tribunal Federal não têm relação com comércio. Agora, o desfecho depende tanto dos argumentos técnicos apresentados nas audiências quanto de uma solução negociada entre os governos antes do prazo de 15 de julho.

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