Por Jeffis Carvalho
Spielberg e o fascínio por Ets: se “Dia D” divide opiniões, recorra ao streaming e assista a “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, o seu clássico de 1977
“Dia D”, o mais novo filme de Steven Spielberg, está em cartaz nos cinemas e vem dividindo a crítica e mesmo a opinião do público. Isso não ocorre com um seus grandes clássicos de ficção científica que está ao nosso alcance em um simples click para a plataforma Apple TV.
“Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, que no ano que vem completa 50 anos, é um dos grandes filmes do cineasta norte-americano, e hoje se tornou um dos filmes em que mais se pode perceber como o estilo cinematográfico de Spielberg se mostra a quase cada tomada. Tudo o que se pode dizer de sua estética está ali de forma muito elaborada e já amadurecida. Temos diante de nossos olhos um cinema de autor por excelência.
O épico intimista de “Tubarão”
Em seu filme anterior, o também clássico e excelente “Tubarão”, de 1975, já testemunhamos a sua proposta de filme de ação e de aventura concebido como um épico em que a narrativa se desenrola a partir do ponto de vista e da atuação de pessoas comuns – de seu cotidiano familiar, profissional. Ou seja, temos ali uma estética que até aspira à grandiosidade cinematográfica, mas elaborada por meio de uma trama que se desenrola em uma pequena cidade do litoral, uma comunidade como outra qualquer, com suas limitações e, ao mesmo tempo, com a possibilidade de grandes feitos diante do perigo. Não à toa, o cineasta já confessou que toda vez antes de começar as filmagens de uma nova obra, sempre procura rever o monumental “Lawrence da Arábia”, de David Lean, um dos grandes filmes da história do cinema, e exemplo máximo do épico intimista.
Dois anos depois do sucesso estrondoso de “Tubarão”, Spielberg realiza “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind, 1977). A trama é, ao mesmo tempo, ambiciosa em seus desdobramentos e impactos para a humanidade, e plena de simplicidade ao criar um protagonista que é um homem comum, de família e da classe trabalhadora.
Roy Neary e o cientista Claude Lacombe
No filme, Roy Neary (Richard Dreyfuss) , um eletricista comum de Indiana, tem sua vida transformada após uma misteriosa luz no céu durante um apagão elétrico. A experiência desperta nele uma obsessão crescente por imagens e formas que não consegue explicar — uma compulsão que o isola da família e o consome por completo.
Paralelamente, o cientista francês Claude Lacombe (interpretado pelo grande cineasta François Truffaut) investiga, ao lado de uma equipe internacional, uma série de eventos inexplicáveis ao redor do mundo: aviões desaparecidos décadas atrás que reaparecem intactos, sinais misteriosos captados do espaço e pessoas comuns, como a jovem mãe Jillian Guiler (Melinda Dillon) também tomadas pela mesma visão obsessiva, depois do desaparecimento de seu filho de 4 anos.
O encontro em Devils Tower
Conforme as pistas se conectam, Roy e Jillian seguem seus instintos até Devils Tower, no Wyoming — local que vem assombrando suas mentes — onde governo, cientistas e civis convergem para um encontro extraordinário: o primeiro contato pacífico da humanidade com uma inteligência extraterrestre, retratado por Spielberg com um misto de mistério, maravilhamento e pura emoção visual.
A estética spielberguiana e o legado em “E.T.”
Toda a primeira parte do filme é um primor da estética de Spielberg em sua proposta de contar uma história por meio do cotidiano de pessoas comuns. E, para isso, se vale do que também em Luchino Visconti era essencial: o cenário como personagem na concepção da “mise-en-scène”. Entre as várias cenas que elaboram essa estética, destaco apenas uma entre muitas outras do filme: a sequência que antecede a abdução do filhinho de Jillian. Nela, objetos ganham vida sem nenhum truque sobrenatural. Pelo contrário, se tornam animados por meio da ação de algo que ainda não sabemos do que se tratar, mas percebemos que deve ser um tipo de energia ou força, que põe aparelhos elétricos – como um toca-discos –, ou eletrodoméstico – como a torradeira -, ou ainda um brinquedo – como o bate-bumbo a pilha -, tudo em movimento, ganhando vida diante de nossos olhos e os do menino em cena.
Temos nessa cena a marca registrada do estilo “spielberguiano”, e que ele vai aprimorar ainda mais na sua obra-prima “E.T. – O Extraterreste”: a família comum, o garoto comum do subúrbio que vai viver uma aventura épica ao lado de amigos. E na sua interação com um ser de outro mundo, o cineasta constrói todo um cinema feito de cenários, objetos, adereços e até filmes e programas de televisão que se colocam em simbiose com os personagens para nos contar uma história de profundo sentimento humano.
No cinema de Spielberg nunca os contatos foram tão imediatos.