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Cármen Lúcia: uma voz também em defesa da mulher

Há 3 meses
Atualizado domingo, 8 de março de 2026

Por Jeffis Carvalho

Há um fio invisível que atravessa os discursos de Cármen Lúcia nos últimos meses — do TSE ao STF, das tribunas de congressos internacionais ao silêncio pesado de um julgamento histórico. Esse fio tem nome: a recusa em aceitar que democracia e igualdade de gênero possam existir separadas, como se fossem projetos distintos de um mesmo país. Para a ministra, não são.

Em maio de 2025, diante do XXV Congresso da Federação Internacional das Mulheres da Carreira Jurídica, ela disse o que já deveria ser óbvio, mas ainda precisa ser repetido em voz alta:

“Não há democracia sem igualdade de gênero, uma vez que é por meio da igualdade que se garante o respeito à dignidade.”

Palavras simples. Peso imenso.

A política que expulsa quem deveria governar

Os números que Cármen Lúcia carrega consigo são fortes demais na sua frieza. Nas eleições de 2024, apenas 733 dos 5.569 municípios brasileiros elegeram uma prefeita — isso num país em que as mulheres representam 53% do eleitorado. No Congresso Nacional, a bancada feminina mal alcança 18% dos parlamentares, bem abaixo da média mundial de 27%. E o Brasil, em toda a sua história, elegeu uma única mulher para a Presidência da República.

Mas o que mais perturba a ministra não é apenas a ausência —  é, antes de tudo, o recuo. Em seminário nacional sobre violência política contra as mulheres, ela relatou que prefeitas com mais de 80% de aprovação desistem de buscar a reeleição. Não perdem nas urnas. Desistem antes, acossadas por campanhas de desmoralização, por discursos sexistas que, nas palavras dela:

“Aviltam as mulheres de tal forma que atingem inclusive seus familiares”.

Fraude vestida de cumprimento da lei

Desde 1997, a legislação eleitoral brasileira obriga os partidos a reservar 30% das vagas de candidatura para mulheres. Cármen Lúcia revela, porém, que a maioria dos processos julgados pelo TSE desde 2020 envolve justamente a fraude a essa cota. Candidatas emprestam o nome, cumprem o formulário, e não recebem estrutura, dinheiro nem condições reais de campanha. A lei existe no papel. A igualdade, ainda não.

E como se a desinteligência humana precisasse de reforços, a ministra lança um alerta sobre a inteligência artificial: treinada com os dados do mundo real, ela herda e amplifica os mesmos preconceitos que já existem fora das telas.

“Não me preocupo com a inteligência artificial”, disse, com a precisão cortante de quem escolhe bem as palavras. “Eu me preocupo com a desinteligência natural.”

O julgamento que fez muito mal

Em 25 de fevereiro de 2026, o STF concluiu o julgamento da Ação Penal 2434 — o caso do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. O voto de Cármen Lúcia não foi apenas jurídico. Foi um depoimento.

A ministra disse que o crime precisa ser lido como violência política de gênero. Que a escolha da vítima — vereadora, mulher, negra, combativa — não foi casual. Que Marielle representava um incômodo real para os interesses do grupo criminoso, e que eliminá-la era também uma tentativa de silenciar uma voz que incomodava.

“Nós mulheres, e mesmo eu branca e mesmo eu juíza”, afirmou, “somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos.”

Os disparos que atingiram o Brasil inteiro

Cármen Lúcia foi direta sobre a dimensão do crime: os tiros “não atingiram apenas três pessoas, mas o Brasil inteiro”. E foi igualmente direta sobre os seus limites pessoais diante dele.

“Este processo tem me feito muito mal. Muito mal espiritualmente, muito mal psicologicamente.”

Não é comum que uma ministra do Supremo admita, em plenário, que um julgamento a abala dessa forma. Mas talvez seja exatamente esse o ponto: fingir imunidade seria desonesto.

Ela recorreu ao conceito grego de hybris — a soberba desmedida de quem se crê acima de qualquer consequência — para nomear a arrogância dos executores e mandantes. Homens que se julgaram “senhores da vida e da morte”. E descreveu a atuação das milícias no Rio de Janeiro como um “feudalismo criminoso” instalado dentro do próprio Estado, “um Estado brasileiro contra outro Estado”.

A pergunta que fica

Ao final do julgamento, Cármen Lúcia fez uma pergunta que não era retórica — era uma acusação:

“Quantas Marielles o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de justiça nesta pátria de tantas indignidades?”

Não há resposta satisfatória. E talvez seja essa a função de certas perguntas — não de encontrar resposta, mas de tornar impossível o esquecimento. Tanto no TSE quanto no STF, o que Cármen Lúcia tem feito, com insistência e com custo pessoal, é precisamente isso: não deixar que o Brasil esqueça o que ainda deve às mulheres — às que recuaram, às que perderam, às que foram silenciadas para sempre.

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