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Deputada Tábata Amaral discursa no encerramento do XIII Fórum de Lisboa

Deputada Tábata Amaral defende regulação corajosa do ambiente digital no encerramento do Fórum de Lisboa

Há 10 meses
Atualizado sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Parlamentar paulista cita caso do Roblox como exemplo de exploração no mundo virtual e propõe que tecnologia seja usada para aproximar Estado dos cidadãos

Por [Nome do Repórter]
São Paulo – [Data]

A deputada federal Tábata Amaral (PSB-SP) defendeu uma “regulação corajosa” do ambiente digital durante sua participação no encerramento da 13ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, que aconteceu na sexta-feira (4) na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Em discurso que abordou a soberania digital brasileira, a parlamentar alertou para os riscos da ausência de marco regulatório e citou casos concretos de exploração no mundo virtual.

O evento, que é capitaneado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e conta com a participação de outros quatro ministros da Corte, reuniu grandes nomes da política, do Judiciário e da academia. Para a deputada, o debate sobre soberania digital “é o mais complexo, mas também o mais urgente dos nossos tempos”.

O questionamento central

Tábata iniciou seu discurso com uma pergunta provocadora: “quem é que tem legitimidade para organizar a nossa vida coletiva?”. Para ela, em uma democracia, a resposta é única: “o povo e as representações e instituições que foram por ele escolhidas”. O problema, segundo a parlamentar, é que o mundo digital vem adentrando todos os domínios da vida, mas permanece fora do debate regulatório.

“Se a nossa vida coletiva, que se dá também nesse ambiente digital, ficar de fora dessa regulamentação, a gente sabe que a gente vai perder essa batalha”, alertou a deputada. Para ela, a soberania só permanece válida se for capaz de organizar também o mundo digital.

A parlamentar criticou a incapacidade global de organizar a vida quando ela se dá no ambiente digital, o que tem questionado tanto a soberania quanto a democracia. “O mundo todo, e aqui o nosso Brasil não está sozinho, vem perdendo a capacidade, ou até hoje não encontrou os meios de organizar essa vida quando ela se dá no ambiente digital”, afirmou.

O caso Roblox: trabalho infantil disfarçado de diversão

Um dos pontos mais impactantes do discurso foi quando Tábata trouxe o exemplo da plataforma Roblox para ilustrar a urgência da regulação. A deputada explicou que 60% dos usuários da plataforma têm menos de 16 anos e 40% têm menos de 12 anos, caracterizando um público majoritariamente infantil.

O problema, segundo ela, está no modelo de negócios da plataforma: “Nessa plataforma tem uma moeda digital, o Robux, e essa moeda ela serve para remunerar crianças que dedicam horas todos os dias para produzir os jogos que a plataforma vai comercializar”. A deputada destacou ainda que a Roblox fica com 80% do rendimento dos jogos que são feitos pelas crianças.

A parlamentar denunciou que é muito difícil para as crianças converterem a moeda digital em dinheiro real: “a conversão é difícil, o câmbio é ruim, a plataforma faz de tudo para que a criança não consiga tirar o dinheiro”. Para Tábata, isso configura uma situação em que “crianças trabalham, criam, geram valor sem receber quase nada”.

Roblox está sob investigação no Brasil

O Ministério Público do Trabalho (MPT) de São Paulo abriu inquérito civil para investigar se a plataforma Roblox lucra com trabalho infantil de programação feita por crianças e adolescentes. A investigação foi motivada por denúncias de que menores de idade oferecem serviços de criação de jogos por valores irrisórios na moeda virtual da plataforma.

A procuradora Luísa Carvalho Rodrigues, da Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente, alerta: “Essa visão de que o trabalho infantil precisa ser algo sofrido não necessariamente corresponde à realidade. Não é porque é algo divertido que vai deixar de ser trabalho”.

Em sua defesa, Stefano Corazza, chefe do Roblox Studio, afirmou durante a Games Developer Conference que isso é um “presente” para os jovens, especialmente aqueles em dificuldades financeiras. A empresa nega a existência de relação de trabalho com os usuários.

Regulação já existe, mas de forma privada

Tábata fez questão de desconstruir o que considera um “dilema equivocado” no debate sobre regulação digital. “O debate não é entre regular e não regular”, enfatizou. “O ambiente digital já é regulado, já existe uma soberania, só que quem define as regras e a estrutura de como que as pessoas interagem não é a sociedade por meio de suas representações, mas são os donos daqueles espaços”.

A deputada distinguiu entre internet como conceito geral e plataformas específicas: “Uma coisa é a internet, uma coisa é todo o ambiente digital, outra coisa são plataformas com CNPJ, com donos bilionários, mas que vêm influenciando a nossa vida como nunca antes aconteceu”.

Para ela, regular setores econômicos não é novidade na sociedade: “colocar a regra para setores econômicos, como a gente já fez lá atrás, com a indústria farmacêutica, com o turismo, com a metalurgia, com o automobilismo, isso não é novo”.

Adaptação institucional e oportunidades

No segundo bloco de sua fala, Tábata defendeu que as instituições brasileiras precisam se adaptar à revolução digital. Ela compartilhou experiências pessoais da campanha eleitoral de 2024, quando foi candidata à Prefeitura de São Paulo, incluindo denúncias sobre distribuição de dinheiro vivo para divulgação de cortes não declarados e a criação de vídeos pornográficos com deepfake usando sua imagem.

“Na eleição do ano que vem vai ser pior. A gente está preparado para isso?”, questionou a deputada, alertando para a necessidade de preparação institucional.

Mas Tábata também vê oportunidades na tecnologia. Ela citou o exemplo de Recife, cidade governada por seu companheiro João Campos (PSB), como modelo de uso da tecnologia para aproximar governo e cidadãos: “A prefeitura de Recife é hoje a cidade do mundo que mais envia WhatsApp para seus cidadãos”, destacou, mencionando mensagens automáticas sobre vacinação e benefícios sociais.

SUS e inteligência artificial

A deputada também vislumbrou potencial no Sistema Único de Saúde (SUS) combinado com inteligência artificial: “Que outro país está melhor posicionado do que a gente para usar integração de dados com IA e falar de uma medicina que não é nem mais a 3.0, é a 4.0, é a preventiva feita para cada um de nós?”.

Ela lembrou que “não foi os Estados Unidos que fez o PIX, foi o Brasil, foram os servidores públicos brasileiros que fizeram”, demonstrando o potencial nacional para inovação.

Compromissos e desafios

Ao final do discurso, Tábata assumiu dois compromissos públicos. O primeiro é “seguir lutando no Congresso Nacional para que a gente faça a nossa contribuição democrática na medida mais corajosa”. O segundo, relacionado ao seu novo cargo de vice-presidência de comunicação do PSB, é mostrar que “não são só os extremos que sabem se comunicar no mundo digital”.

A deputada encerrou com um apelo: “Nós precisamos de coragem para defender a nossa democracia, para defender a nossa soberania nacional, mas para dizer para as pessoas que a gente vai usar essa inovação toda para melhorar a vida delas, para incluir mais gente”.

O Fórum Jurídico de Lisboa acontece em um momento de tensão entre os Poderes no Brasil, com debates sobre regulação da inteligência artificial, governança digital e segurança jurídica. O evento reuniu ministros do STF, integrantes do governo federal, parlamentares e acadêmicos ao longo de três dias de debates na Universidade de Lisboa.

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