Da Redação
A etapa comercial do acordo entre Mercosul e União Europeia passou a valer em 1º de maio de 2026, inaugurando uma nova fase nas relações econômicas entre América do Sul e Europa após mais de duas décadas de negociações — e já produzindo efeitos concretos sobre tarifas, investimentos e cadeias produtivas.
Mudanças imediatas para exportadores
Com a entrada em vigor, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai operam sob novas regras comerciais com o bloco europeu.
Entre as medidas já aplicadas estão a redução imediata de tarifas para uma série de produtos exportados pelo Mercosul e a ativação de cronogramas de desgravação para outros setores, que podem se estender por até 12 ou 15 anos.
Também passam a vigorar regras comuns de origem — que determinam quais produtos acessam os benefícios do tratado — e mecanismos de facilitação aduaneira voltados à redução de custos logísticos.
O que muda para o Brasil
O agronegócio brasileiro figura entre os principais beneficiados. Carnes, açúcar, etanol e café ganham acesso ao mercado europeu dentro de cotas já estabelecidas.
No setor industrial, começa a desgravação gradual de tarifas que antes chegavam a até 35%. O tratado também abre perspectivas para serviços e compras governamentais, ainda que de forma progressiva.
A advogada internacional e ex-parlamentar italiana Renata Bueno, que acompanhou as negociações ao longo dos últimos 20 anos, avaliou em entrevista que o impacto mais profundo deve se dar na integração produtiva. Segundo ela, o acordo cria condições para que Brasil e Europa passem a atuar de forma mais complementar nas cadeias globais de valor.
Segurança jurídica como atrativo para investimentos
Para especialistas, a previsibilidade gerada pelo tratado é um dos seus principais ativos em um cenário internacional marcado por instabilidade.
Bueno destacou que a redução de barreiras combinada ao estabelecimento de regras claras tende a favorecer o ambiente de negócios e estimular a integração produtiva entre os países signatários.
O pacto envolve blocos que somam mais de US$ 22 trilhões em PIB e cerca de 700 milhões de pessoas, o que o coloca entre os maiores acordos comerciais já firmados no mundo.
Desafios ambientais ainda no centro do debate
Apesar dos avanços, a dimensão ambiental do acordo segue como ponto sensível nas relações entre os blocos.
Bueno ressaltou que a credibilidade do tratado dependerá da implementação efetiva dos compromissos assumidos nessa área, com fiscalização, transparência e cooperação real entre os países envolvidos.
Uma janela estratégica para o Brasil
A entrada em vigor é vista por analistas como uma oportunidade de reposicionamento para o Brasil no cenário global — não apenas como exportador de commodities, mas como participante ativo em cadeias de maior valor agregado.
Para Bueno, no entanto, o acordo representa apenas o ponto de partida. O verdadeiro teste, segundo ela, será a capacidade de implementação do que foi firmado — e é disso que dependerá o seu legado histórico.