Da Redação
Presidentes do Brasil e dos Estados Unidos se encontram em Washington em visita de trabalho com pauta ampla e sensível para os dois países
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontra nesta quinta-feira (7) em Washington com o presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca. A reunião está marcada para as 11h (horário local, 12h no Brasil), com declarações à imprensa no Salão Oval e almoço de trabalho em seguida.
É a segunda vez que os dois líderes se encontram pessoalmente. A primeira foi em outubro, durante uma cúpula na Malásia. Antes disso, trocaram poucas palavras na Assembleia Geral da ONU, em setembro, e falaram por telefone na semana passada — conversa descrita pelo governo brasileiro como “amistosa”.
Por que o encontro importa agora
O momento é delicado nas relações entre os dois países. Os Estados Unidos aplicaram tarifas sobre produtos brasileiros e sancionaram autoridades nacionais nos últimos meses. O encontro é visto como uma tentativa de reabrir o diálogo e evitar que a situação piore.
O formato escolhido, chamado de “visita de trabalho”, é menos protocolar do que uma reunião bilateral formal — o que, segundo analistas, permite mais flexibilidade nas conversas e menos compromissos públicos.
PIX na mira do governo americano
Um dos temas mais delicados da agenda é o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. O Escritório do Representante Comercial dos EUA investiga o PIX por considerar que ele cria desvantagens para empresas norte-americanas do setor financeiro, como as operadoras de cartão de crédito.
O Brasil rebate esse argumento dizendo que o sistema não discrimina nenhuma empresa estrangeira — e lembra que empresas como o Google já operam dentro da plataforma. Lula chegou a dizer publicamente, em abril, que “o PIX é do Brasil”, em tom de defesa da soberania nacional. A expectativa é que o governo use o encontro para tentar encerrar a investigação americana.
Facções brasileiras podem ser rotuladas de terroristas
Outro ponto espinhoso é a possibilidade de os EUA classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas — o mesmo tratamento dado a grupos do México e da Venezuela.
O secretário de Estado Marco Rubio é apontado como defensor dessa medida. Lula, por sua vez, quer convencer Trump a abandonar a ideia. O argumento do governo brasileiro é que o país já trata o crime organizado como prioridade e que a cooperação bilateral é o caminho mais eficaz — sem precisar de rótulos que, na avaliação do Palácio do Planalto, poderiam abrir espaço para ações mais agressivas por parte dos americanos em território nacional.
Minerais estratégicos e a disputa com a China
O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras e minerais críticos do mundo — recursos essenciais para tecnologias como painéis solares, veículos elétricos e inteligência artificial. Os EUA querem influenciar as regras do comércio global desses materiais, hoje dominado pela China.
O governo brasileiro sinalizou que não vai aderir a nenhuma aliança proposta por Washington para o setor, preferindo negociar acordos bilaterais caso a caso. Um acordo firmado pelo estado de Goiás com os EUA para exploração desses minerais também deve aparecer na conversa — o governo federal considera o acordo sem validade jurídica, já que o subsolo pertence à União. Na véspera do encontro, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Guerras, Venezuela e o papel do Brasil no mundo
Lula e Trump têm visões bem diferentes sobre os conflitos internacionais em curso. O governo brasileiro condenou ataques americanos à Venezuela e ao Irã, e Lula chegou a dizer em entrevista que Trump não pode “ameaçar outros países com guerra o tempo todo”.
O presidente brasileiro defende o fortalecimento da ONU e a solução diplomática dos conflitos, enquanto Trump tem adotado posturas mais unilaterais. Lula foi convidado para integrar um Conselho da Paz criado por Trump, mas ainda não aceitou o convite. A situação humanitária em Cuba, agravada por restrições americanas ao envio de petróleo, também pode entrar na pauta.
Eleições brasileiras e o tabuleiro político
Por trás das discussões técnicas, há também um componente político doméstico. Segundo informações apuradas pela jornalista Andreia Sadi, Lula quer sair do encontro com um compromisso informal de que os EUA não vão interferir nas eleições brasileiras de outubro nem apoiar adversários como Flávio Bolsonaro (PL).
A preocupação no entorno do presidente é com o Departamento de Estado americano, visto como mais ideológico e com canais abertos com o bolsonarismo. Um ataque direto de Trump não é esperado, mas Lula quer garantias. Domesticamente, a reunião também serve como demonstração de força num momento de desgaste — após a derrota no Senado na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal.