Da redação
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou nesta terça-feira (16) o sigilo de processos (Pets 15978 e 15873) que integram as investigações sobre o Banco Master. A decisão expôs um relatório da Polícia Federal segundo o qual o ex-banqueiro Daniel Vorcaro mantinha uma “relação funcional e instrumental” com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), pagando-lhe mensalmente até R$ 500 mil e custeando viagens internacionais de luxo em troca de atuação parlamentar favorável aos interesses do banco.
Segundo a representação enviada ao STF, Vorcaro oferecia ao senador o que os investigadores chamaram de tratamento “privilegiado” e “diferenciado”, incluindo hospedagens em hotéis de alto padrão no exterior, voos em jatos particulares e até a compra de roupas para viagens de esqui. Em contrapartida, Ciro Nogueira teria atuado para defender no Senado propostas legislativas de interesse direto da instituição financeira controlada pela família Vorcaro.
Emenda redigida pelo banco
De acordo com a PF, o caso mais emblemático dessa troca de favores é a chamada “emenda Master” — a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023. O documento aponta que o texto da proposta foi integralmente concebido por assessoria vinculada ao Banco Master, com indícios obtidos em mensagens de celular apreendido e na comparação entre minutas privadas e o texto protocolado no Senado. Investigadores afirmam ainda que havia orientações para entrega do material diretamente na residência do parlamentar.
A PF avalia que a proposta tinha potencial para ampliar significativamente os negócios da instituição financeira, ao mesmo tempo em que transferia risco ao Fundo Garantidor de Créditos, o que poderia resultar em prejuízos repassados ao sistema financeiro. O inquérito também menciona o uso de empresas e terceiros interpostos para dificultar o rastreamento da origem e destino dos recursos.
A defesa de Ciro Nogueira nega qualquer participação do senador em atividades ilícitas.
Gastos superam R$ 500 mil em viagens
As investigações detalham viagens a destinos como Paris, Nova Iorque, Portugal e Courchevel, na França, entre 2024 e 2025. Em pelo menos três ocasiões, o senador teria viajado em aeronaves particulares de Vorcaro, com custeio de transporte local, reserva de chalés e até vestuário específico para atividades de esqui, conforme apuração. A PF estima que o valor total dessas despesas, ainda sob apuração, já supera R$ 500 mil em um cálculo considerado conservador pelos investigadores.
Vorcaro está preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, acusado de fraudes financeiras ligadas à liquidação do Master pelo Banco Central. Tentativas de acordo de delação premiada apresentadas por ele já foram rejeitadas pela PF e pelo Ministério Público.
Irmã de “Sicário” ameaçou expor família Vorcaro
Outro documento que teve o sigilo retirado nesta terça revela que Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Mourão — o “Sicário”, apontado como braço direito de Vorcaro na organização criminosa — ameaçou divulgar informações capazes de comprometer a família do ex-banqueiro. Segundo a PF, integrantes do esquema atuaram para tentar comprar o silêncio dela após a prisão e morte de Sicário, ocorridas em março deste ano durante a Operação Compliance Zero.
Mensagens interceptadas mostram Joana cobrando ajuda financeira de interlocutores de Vorcaro, alegando dificuldades para pagar financiamentos. O caso evoluiu para a atuação de Manoel Mendes Rodrigues, o “Manolo”, braço-direito de Henrique Vorcaro (pai de Daniel) no Rio de Janeiro, apontado pela PF como líder de um grupo de intimidação conhecido como “A Turma”.
Encontro e suspeita de lavagem de dinheiro
Diante das ameaças, “Manolo” articulou um encontro presencial com Joana e a mãe dela em abril, durante o qual mencionou a transferência de “contratos de ativos” para o nome da mãe da família Mourão. Mesmo após a reunião, Joana voltou a ameaçar Henrique Vorcaro publicamente.
A PF identificou ainda que Joana figura como sócia-administradora de uma empresa de consultoria imobiliária com capital social de R$ 1 milhão, fato que, somado a mensagens sobre a formalização de um contrato, levanta suspeitas de lavagem de dinheiro de recursos obtidos por Sicário em atividades ilícitas a mando de Vorcaro.
A investigação também recuperou a prisão de Henrique Vorcaro na sexta fase da Compliance Zero, em maio, por suposto uso da máquina pública para obtenção ilegal de dados, com a participação de um policial federal preso por acessar informações sigilosas sobre passaportes e viagens de pessoas monitoradas pelo grupo.
*Com informações de agências de notícias