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Pantanal, a esponja que está sendo esmagada

Há 6 meses
Atualizado sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Por Jeffis Carvalho

Leonidares Souza sabe quando a água está chegando. Sente no ar, nas nuvens que se avolumam sobre a planície, nos primeiros redemoinhos que o vento faz na superfície do rio. Cinquenta e oito anos vivendo no Pantanal ensinaram seus olhos a ler o que os mapas não mostram: o ritmo de um território movido pela dança das águas que mais e mais se vê cercado por projetos que prometem desenvolvimento mas podem drenar sua própria existência. Um território que respira água, que cresce e encolhe como um pulmão gigante deitado no coração da América do Sul.

Mas ultimamente, ela diz, o Pantanal está respirando errado.

“A maior ameaça é a diminuição da água”, conta a artesã, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado com que seleciona as fibras para seus trabalhos manuais. “Quando a água diminui, se desequilibra tudo. Não tem peixe suficiente, não tem animais suficientes, não tem água para as aves, não tem água para as plantações. As coisas vão mudando para o mal.”

Estamos em junho de 2024. Em  Campo Grande um grupo de procuradores da República, pesquisadores e lideranças tradicionais se reúne no seminário “Pantanal: Patrimônio, Desafios e Perspectivas”. Nas paredes do auditório, mapas coloridos mostram os rios serpenteando pela maior planície alagável do planeta — um bioma de 150 mil quilômetros quadrados de território que funciona como uma esponja natural, absorvendo e liberando água em ciclos que ditam onde nasce, cresce e morre cada forma de vida.

Mas os mapas também mostram algo mais sinistro: dezenas de pontos marcados ao longo do Rio Paraguai onde explosivos deverão ser detonados, onde dragas gigantes precisarão sugar o fundo do rio, onde rochas milenares — os chamados gargalos naturais — serão removidas para dar passagem a comboios carregados de minério de ferro e soja.

A Hidrovia Paraguai-Paraná não é apenas um projeto de infraestrutura. É uma tentativa de redesenhar a geografia.

O preço da velocidade

Marco Antônio Delfino, procurador da República em Mato Grosso do Sul, sabe explicar com precisão científica o que está em jogo. Mas quando fala sobre o Pantanal, sua voz carrega algo além dos termos técnicos — há urgência, quase aflição.

“O aumento da velocidade de escoamento da água pode acarretar uma drenagem do Pantanal com efeitos irreversíveis”, ele diz, inclinando-se sobre um mapa que mostra os mais de 50 pontos críticos onde intervenções estão planejadas. “Pode reduzir as inundações laterais e drenar a planície pantaneira, comprometendo o ciclo natural que mantém o bioma vivo.”

A palavra “irreversível” ecoa pelo auditório.

Pense assim: o Pantanal funciona porque é lento. Os afloramentos rochosos — aqueles obstáculos naturais que os engenheiros querem explodir — são como represas invisíveis, freios hidráulicos que fazem a água espalhar-se pela planície em vez de correr direto para o oceano. Remova-os, e a esponja deixa de absorver. A água escorre rápido demais. As áreas úmidas secam. O ciclo de cheias e vazantes, esse metrônomo natural que há milênios marca o compasso da vida, começa a desafinar.

E quando o Pantanal deixa de funcionar como esponja, não é só o Brasil que sente. Rio abaixo, na Argentina, as inundações podem se intensificar. O regime hídrico de toda a Bacia do Alto Paraguai — que abrange territórios em quatro países — entra em colapso.

Estefânia Oliveira, coordenadora técnico-científica do Instituto SOS Pantanal, usa uma metáfora diferente: “Quando uma variável é alterada, outras também sofrem modificações, é um efeito em cadeia. Não estamos falando de um impacto isolado, e sim de múltiplos impactos distribuídos ao longo de diferentes setores da bacia.”

É como puxar um fio numa tapeçaria. No começo, parece apenas um pequeno ajuste. Mas logo você percebe que o tecido inteiro está se desfazendo.

Patrimônio tombado, destino incerto

Em Corumbá, o Farol Balduíno se ergue sobre um afloramento rochoso desde 1912, guiando embarcações pelo Rio Paraguai. Patrimônio histórico tombado, o farol é mais que uma estrutura de navegação — é memória física de um tempo em que o rio ditava suas próprias regras.

Mas o farol está construído exatamente sobre uma das rochas que os engenheiros querem explodir.

A ironia é quase literária: para facilitar a navegação moderna, precisamos destruir o símbolo da navegação histórica. O derrocamento está interligado ao do Canal do Tamengo, pensado para permitir que a Bolívia opere comboios maiores. Progresso e patrimônio em rota de colisão, com o passado sendo literalmente dinamitado para abrir caminho ao futuro.

As barragens que quebram o pulso

Se a hidrovia ameaça drenar o Pantanal pela velocidade, as hidrelétricas o estrangulam pela retenção.

Já são 58 usinas instaladas na Bacia do Alto Paraguai. Os planos preveem mais de 100 para os próximos anos. Cada barragem é uma guilhotina no fluxo natural dos rios, cortando a conexão entre o planalto — onde nascem as águas — e a planície, onde elas se espalham e sustentam a vida.

A Hidrelétrica de Manso, no Rio Cuiabá, é o exemplo que todos citam. Sua operação modificou os picos de cheia e aumentou o nível mínimo durante a seca. Parece uma melhoria técnica — menos extremos, mais previsibilidade. Mas para o Pantanal, que evoluiu para prosperar exatamente nesses extremos, pode ser uma sentença de morte lenta.

Débora Calheiros, pesquisadora da Embrapa, explica com a paciência de quem já repetiu esse alerta dezenas de vezes: “Essa alteração interfere profundamente na hidrologia do rio, afetando toda a biodiversidade e a produção pesqueira. A presença da barragem, por exemplo, impede a migração dos peixes, comprometendo o equilíbrio ecológico.”

Os peixes não conseguem subir o rio para desovar. Os sedimentos que fertilizavam a planície ficam presos nos reservatórios. Os nutrientes que sustentavam cadeias alimentares inteiras simplesmente desaparecem. E com eles, desaparecem também os pescadores, as comunidades ribeirinhas, os indígenas Guató que há gerações constroem suas vidas ao ritmo das águas.

O mais frustrante, dizem os procuradores, é que existe um plano. O Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do Paraguai foi aprovado em 2018 pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos, depois de anos de pesquisa coordenada pela Embrapa Pantanal, envolvendo 80 cientistas e R$ 12 milhões de investimento público. O documento estabelece com clareza científica onde não se deve construir hidrelétricas.

Mas o plano permanece engavetado, paralisado por pressões políticas e econômicas.

A ilusão da conservação

“O Pantanal é o bioma mais conservado do Brasil”, repetem as estatísticas oficiais. Os especialistas no seminário de Campo Grande sabem que essa frase é, na melhor das hipóteses, meia-verdade.

Débora Calheiros aponta o problema: o Pantanal oficial — aquele reconhecido pelos órgãos governamentais — é apenas a planície. As nascentes, as cabeceiras dos rios que alimentam toda a região, ficam de fora da conta. E é justamente lá, no planalto esquecido pelas estatísticas, que a destruição avança mais rápido.

Dados do MapBiomas mostram que entre 60% e 80% das nascentes já foram desmatadas. Na planície, forma-se um “arco de degradação” — desmatamento que avança em ondas concêntricas, comendo as bordas do bioma. Soja, milho, cana-de-açúcar. O agronegócio cerca a última grande área úmida do planeta como um exército sitiando uma cidade.

“Isso nos coloca diante de um ponto crítico”, diz Débora, com uma frustração mal disfarçada. “Como conservar o Pantanal sem preservar suas nascentes?”

É a pergunta que ninguém quer responder.

O grito de socorro

Roberto Arruda nasceu e cresceu na Serra do Amolar. Conhece cada curva do rio, cada capão de mato, cada baía onde os peixes se escondem na seca. Mas quando fala sobre o presente, suas palavras soam como epitáfio: “A gente vai vivendo e sobrevivendo, porque o clima mudou muito, as coisas já são bem diferentes.”

E então, a frase que resume tudo: “Se o Pantanal tivesse voz hoje, ele daria um grito de socorro.”

O grito está sendo dado. Está nos mapas dos procuradores, nos estudos dos cientistas, nas ações judiciais que tentam frear as hidrovias e as barragens. Está na Carta do Pantanal, divulgada no mesmo junho do ano passado, no Dia Mundial do Meio Ambiente, onde o Ministério Público Federal reafirma seu compromisso com o bioma. Está na decisão do Superior Tribunal de Justiça de agosto de 2024, determinando que o licenciamento da hidrovia seja conduzido pelo Ibama, reconhecendo que os impactos ultrapassam fronteiras estaduais.

Está na ação da Procuradoria-Geral da República no Supremo Tribunal Federal, que resultou em ordem para o Congresso Nacional elaborar, em 18 meses, uma lei federal específica para o Pantanal — prevista na Constituição desde 1988, mas nunca cumprida.

O grito está sendo dado. A questão é: alguém está escutando?

A esponja sob pressão

Corta. Estamos em  novembro de 2025. Enquanto a COP30 acontece em Belém, atraindo para o Brasil os holofotes internacionais sobre mudanças climáticas, o Pantanal continua seu ciclo milenar — ou tenta continuar. A água sobe e desce, mas com menos vigor, menos previsibilidade. As cheias já não alcançam onde alcançavam. As secas duram mais que antes.

Aurélio Rios, subprocurador-geral da República, resume com elegância o que está em jogo: “Podemos falar da Mata Atlântica, da Amazônia, da Caatinga ou do Pantanal, mas nenhum desses biomas existe de forma plena sem as comunidades que vivem e cuidam deles.”

É um lembrete necessário. Não estamos falando apenas de biodiversidade, de espécies ameaçadas, de índices ecológicos. Estamos falando de Leonidares, que aos 58 anos vê a água diminuir e o equilíbrio se romper. De Roberto, que conhece cada palmo da Serra do Amolar e sabe que o Pantanal está pedindo socorro. Dos pescadores que não encontram mais peixes. Dos indígenas Guató que veem suas rotas de coleta de iscas desaparecerem sob o lodo das dragagens.

Estamos falando de um território que é, ao mesmo tempo, Patrimônio Nacional e da Humanidade — reconhecimento que deveria ser escudo, mas parece ser apenas título vazio quando confrontado com projetos de mineração, soja e energia.

A esponja está sendo esmagada. A cada nova barragem, a cada derrocamento planejado, a cada hectare de nascente desmatada, a capacidade do Pantanal de ser Pantanal diminui. E quando uma esponja é esmagada, ela não volta ao formato original. Alguns danos são, como gosta de repetir o procurador Marco Antônio Delfino, irreversíveis.

A palavra continua ecoando.

Irreversível.

E enquanto debates, seminários e ações judiciais se arrastam pelos corredores do poder, lá na planície a água continua tentando fazer o que sempre fez: espalhar-se, nutrir, sustentar. Mas a cada dia que passa, ela encontra menos espaço para isso.

Leonidares tinha razão desde o começo: quando a água diminui, tudo se desequilibra. A questão agora é saber se teremos tempo de reverter o desequilíbrio — ou se estamos apenas documentando, com nossa precisão científica e retórica jurídica, os últimos suspiros de uma esponja sendo esmagada até a morte.


Com informações da Procuradoria Geral da República (PGR)

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