Da Redação
Pesquisa do Instituto Sou da Paz revela que 65% dos brasileiros querem polícia mais preparada e 55% pedem aplicação das leis já existentes.
A maioria dos brasileiros que vivem em grandes cidades não quer simplesmente mais policiais nas ruas nem penas mais duras para criminosos. O que essa população deseja é uma polícia mais bem treinada e que as leis que já existem sejam de fato cumpridas. É o que mostra uma pesquisa do Instituto Sou da Paz, realizada entre novembro e dezembro de 2025 com 1.115 pessoas em 40 municípios brasileiros, entre capitais e regiões metropolitanas.
Os resultados contradizem a narrativa de que a sociedade brasileira é majoritariamente favorável a soluções radicais, como o endurecimento das penas ou a violência policial. Segundo a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo, há uma “maioria silenciosa” que prefere respostas práticas, eficientes e dentro da lei.
Aplicar as leis, não criar novas
Quando perguntadas sobre o que o país precisa fazer em relação aos criminosos, 55% das pessoas responderam que a prioridade é aplicar a legislação já existente a todos, sem exceção. Apenas 39% defenderam o aumento das penas como solução.
A rejeição à violência como resposta também aparece nos dados: somente 20% dos entrevistados concordaram com a ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Por outro lado, 73% acreditam que a resposta correta é julgar e prender quem comete crimes — dentro do que prevê a lei.
Medo muda a rotina de mais da metade da população
O sentimento de insegurança é generalizado e atravessa renda, idade e região. Ao todo, 94% dos brasileiros reconhecem algum grau de violência na cidade em que vivem. Esse medo tem consequências práticas: 57% das pessoas afirmaram ter mudado seus hábitos por causa da violência.
Entre as mudanças mais comuns estão evitar sair à noite (53%), não usar o celular na rua (31%) e mudar de trajeto (29%). Curiosamente, quanto mais perto de casa, maior é a sensação de segurança: 59% se sentem seguros na própria rua, mas apenas 32% têm boa percepção de segurança na cidade como um todo.
Mulheres se sentem mais vulneráveis
As mulheres demonstram níveis mais elevados de preocupação com a violência. Enquanto a média geral de insegurança nas cidades é alta, 74% das mulheres afirmaram se sentir inseguras — número acima da média. Além disso, 83% dos entrevistados identificaram a violência contra a mulher como um crime presente em suas cidades.
Essa percepção também aparece no debate sobre armas: 69% das mulheres são contra ter armas de fogo em casa, ante 49% dos homens. No geral, 60% da população se posicionou contra o acesso doméstico a armas, e 77% acreditam que armas adquiridas legalmente acabam chegando ao mercado ilegal e sendo usadas em crimes.
Polícia preparada vale mais do que polícia numerosa
A aposta em mais policiais nas ruas como solução para a violência não convence a maioria. Apenas 32% das pessoas acreditam que aumentar o efetivo policial muda o cenário de insegurança. Para 65% dos entrevistados, o caminho é investir em capacitação — uma polícia mais preparada, não necessariamente maior.
O uso de câmeras corporais pelos policiais tem aprovação expressiva: 82% da população é favorável à medida, vista como forma de aumentar a transparência e o controle das ações policiais. A confiança nas instituições varia: a Polícia Federal lidera com 68% de aprovação, seguida pela Polícia Militar (58%), Polícia Civil (52%) e guardas municipais (55%).
População quer debate mais sério sobre segurança
Para Carolina Ricardo, os dados indicam uma sociedade que não se satisfaz mais com discursos polarizados. “As pessoas desejam algo novo, que seja pragmático, constitucional e eficiente”, afirmou a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.
A pesquisa utilizou um método chamado “teste de mensagens”, ainda incomum em estudos quantitativos, para identificar quais propostas de segurança pública de fato ressoam na população. O resultado aponta para uma demanda por eficiência, prevenção e uso de tecnologia — não por mais repressão.