Por Jeffis Carvalho
Ele é um dos poucos cineastas que hoje em dia ainda se pode dizer que é um verdadeiro autor, senhor absoluto de sua arte, um contador de histórias com muito estilo e do qual se pode observar o amadurecimento artístico. Ele é Pedro Almodóvar, o diretor espanhol que, assim como Federico Fellini, passou a assinar apenas “um filme de Almodóvar”.
O seu mais novo filme, Natal Amargo, recentemente exibido na competição oficial do Festival de Cannes 2026, já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Nele acompanhamos a história de Elsa (Bárbara Lenine), uma cineasta que vive da publicidade, tem fortes enxaquecas, deseja voltar ao cinema e reorganizar a própria vida ao lado do namorado Bonifácio (Patrick Criado). Ao mesmo tempo assistimos a Raúl (Leornardo Sbaraglia), um diretor veterano, já grisalho, e cuja aparência nos remete ao próprio Almodóvar, que escreve a própria história de Elsa, com a qual quer marcar o seu retorno ao cinema após cinco anos sem filmar.
É mais um autêntico e autoral filme de Almodóvar, em que ele se permite embaralhar as narrativas para mostrar e questionar o preço de transformar pessoas, dores e memórias reais em ficção. Com seu estilo pessoal depurado, ele nos dá mais um belíssimo melodrama, dessa vez metalinguístico – o filme é sobre o próprio cinema, sobre fantasia e realidade; sobre como arte e vida se entrelaçam. Para destravar o embaralhamento da narrativa, do filme dentro do filme, Almodóvar se vale da agente de Raúl, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón). Ela surge como peça-chave para destravar os roteiros – o da cineasta fictícia e do diretor real – o que lhes dá chance de reinventar as suas histórias. E, no fim, claro, tudo é ficção que nos faz pensar e questionar a realidade.
O resultado é um dos filmes mais autorreferenciais do cineasta espanhol. Discípulo declarado de dois dos principais autores do melodrama no cinema, os alemães Douglas Sirk e Rainer Werner Fassbinder, Almodóvar, em Natal Amargo, se dá ao luxo de fazer referências a outros dois gênios do cinema – o sueco Ingmar Bergman e o italiano Federico Fellini.
Como é um “filme de Almodovar”, Pedro brinca com essas referências. Ele dá à narrativa “real” um tratamento ficcional – o diretor em crise nos remete a Oito e Meio de Fellini. Já a cineasta ficcional Elsa tem sua história narrada de forma mais realista, principalmente nos questionamentos que faz ao lado de outras duas personagens fortes de mulheres no filme e cujas “máscaras” vão sendo desnudadas, em referência a Persona, a obra-prima de Bergman.
Do cinema ao streaming
Por sorte, e algo raro hoje em dia, em que não dispomos do acesso fácil ao acervo de filmes das locadoras do bairro, a plataforma MUBI nos brinda com quatro obras de Almodóvar. Isso nos dá a chance de acompanhar, através do tempo, a trajetória – e a evolução – do cinema dele.
Podemos redescobrir (ou descobrir) seu primeiro longa, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, de 1980. Nele já está a força de seu estilo. Acompanhamos “três mulheres que embarcam em loucas desventuras. Pepi, uma preguiçosa, torna-se um sucesso da noite para o dia no mundo da publicidade. Luci, uma dona de casa, descobre seu lado masoquista oculto. Bom é a lésbica punk que ensina Luci a encontrar prazer na dor!”.
Um salto de quase uma década e temos Ata-Me, de 1989, realizado na esteira do sucesso mundial de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, feito um ano antes e que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O filme conta a história de Rick, “um recém-saído de um hospital psiquiátrico, que reencontra sua antiga amante, Marina, e descobre que ela não se lembra dele. Ele tenta convencê-la de que eles têm um futuro juntos, mantendo-a em cativeiro na casa dela, mas perde o controle da situação quando Lola, a irmã de Marina, chega”.
Dez anos depois, Almodóvar ganha o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com uma de suas grandes obras-primas, Tudo Sobre Minha Mãe, de 1999. Mais do que nunca a trama é puro Almodóvar: “após a morte trágica do filho adolescente, Manuela viaja de Madri a Barcelona para tentar encontrar o pai distante que o rapaz nunca conheceu. Lá, reencontra uma velha amiga, uma prostituta trans sem papas na língua, e se aproxima de uma atriz atormentada e de uma jovem freira”.
Finalmente, fechando a seleção que a MUBI batizou de “Magníficas Obsessões”, podemos ver um ousado curta-metragem (31 minutos), centrado apenas em figuras masculinas: Estranha Forma de Vida, de 2023. Mas, claro, como se trata de Pedro Almodóvar, são figuras que se veem nos limites da masculinidade. A sinopse: “após 25 anos separados, o fazendeiro Silva atravessa o deserto a cavalo para visitar uma antiga paixão, o xerife Jake. Mas após uma noite de intimidade, recordações e reconciliação, a revelação de que ambos estão ligados a um crime local sugere que o reencontro não foi apenas para matar a saudade”.
Tudo, absolutamente tudo, “filme de Almodóvar”.
Os quatro filmes podem ser vistos na MUBI.
E veja o trailer de Natal Amargo: https://www.youtube.com/watch?v=lOJZjLk5QGI