Por Jeffis Carvalho
O início é solene, com texto em letterings sobre um céu azul. Somos informados que de acordo com a Constituição, “o presidente da República italiana é o chefe de Estado e representa a unidade nacional”. Ouve-se o som de jatos que cruzam o céu – como também nos acostumamos a ver a nossa esquadrilha da fumaça sobre Brasília. Aqui, é o céu de Roma e logo vemos que a fumaça deixada pelas ousadas manobras da formação aérea pintam no céu o verde, o branco e o vermelho, as cores da bandeira italiana.
Símbolos do Estado e o peso do poder
Segue o texto em arte: “o presidente pode enviar mensagens ao Parlamento; convoca as eleições para um novo Parlamento e marca a sua primeira reunião. Promulga as leis e emite decretos regulamentares. Convoca referendos populares nos casos previstos pela Constituição. Nomeia funcionários estatais nos casos previstos por lei. Credencia e recebe diplomatas. Ratifica os tratados internacionais, mediante, se necessário, autorização do Parlamento. Comanda as Forças Armadas e preside o Conselho de Defesa estabelecido por lei; declara estado de guerra decidido pelo Parlamento. Preside o Conselho Superior da Magistratura. Confere as honrarias da República. Pode conceder indultos e comutar penas”.
Corta.
O palácio e o homem por trás da presidência
Em plano aéreo vemos em panorâmica o Palácio do Quirinal (Palazzo del Quirinale), localizado no alto da colina homônima em Roma. É a residência oficial do Presidente da Itália, servindo como um dos principais símbolos do Estado italiano. Corta.
Um homem, perto de seus 70 anos, caminha no terraço do Palácio. Ao se aproximar da câmera, acende um cigarro e dá profundas tragadas. Ele é Mariano de Santis, o presidente da Itália.
Sorrentino e Servillo: uma parceria que volta a brilhar
De forma solene e elegante tem início A Graça (La Grazie) o mais recente filme de Paolo Sorrentino (A Grande Beleza) mais uma vez estrelado pelo grande ator Toni Servillo, no papel que lhe deu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza de 2025. Se em A Grande Beleza ele dá vida ao quase sempre cínico e mundano jornalista Jep Gambardella, aqui ele encarna um jurista renomado que se torna presidente da República.
Perto do fim de seu mandato, admirado por sua retidão e porte imponente e, talvez também, por ter vencido a presidência, por ter frustrado um candidato extremista. (Uma cena memorável no Teatro alla Scala mostra um membro da plateia de smoking gritando para ele: “Você nos salvou daquele tolo!”) Ele é viúvo e um distinto ex-juiz, renomado por um livro incrivelmente extenso e árido sobre os detalhes da legislação; ele também é um defensor ferrenho da letra da lei constitucional, apelidado de “concreto armado”.
Mariano conta com o amparo de sua filha, a advogada Dorotea (Anna Ferzetti), que vai perdendo a paciência diante da hesitação crônica do pai em tomar posição sobre qualquer coisa. Sobre sua mesa pesam decisões de enorme gravidade: aprovar ou não um projeto de lei que legaliza a eutanásia, e deliberar sobre o indulto de duas figuras igualmente perturbadoras — uma mulher que matou o marido abusivo enquanto ele dormia, e um homem que tirou a vida da esposa acometida por demência. No entanto, o que parece arrancar Mariano do peso do mundo é algo surpreendentemente mundano: o rap que escuta nos fones de ouvido, pequeno e obstinado refúgio sonoro.
Estilo inconfundível e humanidade às avessas
Sorrentino, fiel ao seu estilo, envolve tudo isso numa trilha sonora de eletropop excêntrico, pontuada por zumbidos e chiados metálicos que evocam o interior de um aparelho de ressonância magnética. E se Mariano tem algo que se aproxima de uma amizade verdadeira, ela se materializa na figura de Labaro (Orlando Cinque), o guarda-costas que lhe passa, em surdina, os cigarros que lhe são proibidos.
A câmera e a encenação sempre elegante e moderna, com diálogos brilhantes e pleno de ironias e ácidos comentários, acompanham esse personagem que precisa decidir se concede ou não um indulto – a graça. E nós assistimos esse canto de cisne de um chefe de Estado – ou seja, uma vida pública que se despede para, talvez, viver de alguma forma a vida cotidiana e privada de um homem, no fundo, como cada um de nós. Ou não.
Onde assistir
O filme A Graça pode ser visto na plataforma MUBI a partir desta sexta-feira.