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Eleitores que não desejam votar e uma geração de guerreiros

Há 1 ano
Atualizado sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Passado o susto com as candidaturas de oportunistas agressivos e adeptos da antipolítica, com destaque para a eleição para prefeito de São Paulo, acende-se uma luz amarela, quem sabe já vermelha: o perigo da abstenção dos eleitores. Um fenômeno que vem crescendo em todo o país e pode colocar em xeque o nível de representatividade, essencial para a saúde da nossa democracia. O nível de abstenção no país foi de 21,7%, conforme dados divulgados pelo TSE – Tribunal Superior Eleitoral.

No estado de São Paulo, por exemplo, a abstenção no 1º turno das eleições municipais ficou em 25,3% do eleitorado. Cerca de 8,7 dos 34,4 milhões de eleitores e eleitoras aptos não compareceram às urnas. Esse índice foi de 27,3% nas eleições municipais de 2020, durante a pandemia, e de 20,73% em 2016. Na capital paulista, 2,5 milhões de eleitores não compareceram ao 1º turno das eleições municipais, ou seja, 27,3% do total do eleitorado da cidade que é de 9,3 milhões. O índice de abstenção em 2024 só foi menor do que o registrado no pleito municipal de 2020 (29,3%), ano atípico por causa da pandemia.

Mas o mais preocupante foi mesmo revelado em pesquisa do Datafolha, publicada no domingo seguinte à realização do 1º turno, que mostra que 34% dos brasileiros não teriam ido votar se não fosse obrigatório. O universo da pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 7 e 8 de outubro, abrangeu 113 municípios de todo o país, com 2029 eleitores entrevistados, acima de 16 anos.

A pesquisa aponta ainda que o desejo de abstenção é maior entre os eleitores pretos (42%); de escolaridade média (40%); entre os moradores das regiões Centro-Oeste e Norte (40%). Entre os mais pobres e entre os eleitores na faixa de 25 e 34 anos esse desejo chega a 39%. Aliás, esse último dado pode indicar um desalento das novas gerações com a política, o que coloca em risco, a médio prazo, a força da nossa democracia.

Uma geração polarizada?

Em sua coluna semanal, na Folha, o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, relata uma dura constatação que pode observar junto aos seus alunos de Comunicação Política: “meninos e meninas mal acordam para a política e extremistas enfiam o fuzil em suas mãos”. Ou seja, há uma geração inteira que pode ter tido o despertar para a cidadania já em um cenário de grande polarização. Diz o professor que numa de suas conversas sobre a radicalização do debate político no país, uma estudante “reagiu com ceticismo ao meu julgamento, indagando com sinceridade se política não é sempre guerra e polarização”. Logo em seguida, outros alunos concordaram com ela.

O professor explicou a eles, então, que as “sociedades democráticas são espaços de divergência, mas não de conflito aberto”. A política, disse ele aos alunos “envolve negociação e compromisso, e certo grau de consenso é essencial para projetos políticos comuns”.

Wilson Gomes se faz, então, uma grande pergunta:

– Como é que jovens que estão apenas começando a entender a política de forma madura, mas já mais engajados do que gerações anteriores, normalizaram atitudes que praticamente inviabilizam o país e tornam nossa democracia mais vulnerável?

Para ele, a resposta é bem simples “e basta fazer as contas”. Afinal, quem são esses jovens de hoje? São aqueles que tinham entre oito e nove anos em 2013, “quando o Brasil entrou em surto político”:

– Quando a extrema direita começou a crescer no mundo, eles tinham 11 ou 12. Quando Bolsonaro assumiu, completavam 15 anos. Como poderiam ter outra noção de normalidade política se, desde que se entendem por gente, só viram conflitos abertos entre grupos que se comportam como facções, sectarismo, dogmatismo, ódio e a luta pela superioridade moral?

Ou seja, somados, conclui ele, já temos cerca de 11 anos em que a mensagem política dominante é “estamos em guerra, escolha um lado e lute pela sobrevivência”.

Dois mais dois ainda são quatro

Pois é, o quadro não é nem um pouco alentador. Muito pelo contrário. É só percebemos as evidências, que atualmente parecem mesmo gritar aos nossos ouvidos, ao fazer uma operação simples de soma para chegarmos à conclusão de que a nossa democracia, ainda que não esteja em risco total como em 2022, vive um período grave para seu fortalecimento, ou mesmo para sua sobrevivência. Afinal, dois mais dois ainda são quatro.

Ao refletir e estudar o já longínquo século XX, o historiador Eric Hobsbawm escreveu A Era dos Extremos, uma época de grandes mudanças, muitas incertezas e descrenças variadas sobre a política e destino dos seres humanos. Sua narrativa vai até os anos 1990 e, portanto, passa longe da então nascente internet.

Com um rápido crescimento da chamada era da informação, culminando com o advento e evolução das grandes redes sociais, em que todos falam e opinam sobre tudo e qualquer coisa, o tempo todo, o grande historiador marxista britânico nem imaginou que o primeiro quarto do século XXI é que, sim, seria o que podemos chamar de a era dos extremos.

Uma era, inclusive, em que todo mundo tem opinião e quase ninguém tem razão.

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, e editor de Cinema do Estado da Arte, do Estadão. 

* Os textos das análises e dos artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hjur. 

 

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