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Marina Melo

Em “Ousar Abrir”, Marina Melo mostra como a intimidade vira método, escreve Jeffis Carvalho

Há 8 meses
Atualizado sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Se a gente prestar atenção poderá perceber que ela canta o cenário paulistano com um quê de Tom Zé – um forasteiro em choque com a metrópole – e um outro tanto de Luiz Tatit e o Grupo Rumo – não à toa, Ná Ozzetti participa do álbum. São influências que abrem portas e percepções em direção ao aqui e agora e ao além de hoje, quem sabe mais a frente.

Se você prestar atenção poderá perceber. A tarde está um tanto morna em São Paulo. Dentro de uma casa ensolarada no centro, entre xícaras de café e cabos de guitarra espalhados pelo chão, Marina Melo cria algo que se recusa a caber nas categorias convencionais da indústria musical.  Algo que, acima de tudo, respira São Paulo – a cidade, sua gente, sua pressa e, por vezes, sua paradoxal calmaria em meio ao caos. Tudo filtrado pela intimidade – a pessoal e, por que não, aquela gestada nos afetos coletivos e suas urgências.

Se você prestar atenção, poderá descobrir que Marina Melo é uma cantora, compositora e violonista brasileira de São Paulo que transita pela MPB contemporânea com uma abordagem intimista e experimental. Mas esses rótulos, por mais precisos que sejam, não capturam o essencial: seu trabalho revela uma artista que valoriza o processo colaborativo e a criação orgânica, buscando conexões genuínas entre música, poesia e experimentação sonora. Não é discurso — é prática documentada em cada faixa de “Ousar Abrir”.

O processo Como Estética

O álbum foi criado em três casas ensolaradas no centro de São Paulo, em sessões que Marina descreve com aquela expressão perfeita: “jeito de café da tarde”. Não é metáfora barata. É literal. Sabe aquele momento em que a luz da janela bate oblíqua nas paredes, a conversa flui sem pressa e alguém pega um violão quase por acidente? Pois foi ali, naquele interstício entre o ensaio formal e a intimidade doméstica, que nasceram as nove faixas do disco – todas as músicas levam seu nome nos créditos de composição — duas em parceria, com Ezter Liu numa e com Lau e Eu em outra

A escolha de compor e criar em casas foi uma decisão estética que permeia cada aspecto do resultado final. A produção musical ficou nas mãos de Luiza Brina, que não se contentou em apertar botões: assumiu violões, arranjos, eletrônicos e coro. Foi cúmplice, não apenas técnica. Essa cumplicidade é audível nas texturas do disco, na maneira como os elementos conversam entre si sem hierarquia rígida.

Uma constelação colaborativa

“Ousar Abrir” conta com participações de nomes representativos de cena musical contemporânea de nosso país. O veterano Otto, que já carrega anos de experimentação nas costas; Ná Ozzetti, ícone da cena autoral paulistana que serve como ponte entre gerações; Barbarelli; Lio, que também assinou a direção; Filarmônica de Pasárgada; e Maurício Pereira. É gente que não vai num disco só para constar — vai porque acredita. A presença de Ná Ozzetti, em particular, evidencia o diálogo consciente que Marina estabelece com a MPB autoral paulista, aquela linhagem que valoriza a canção como forma de pensamento.

A preparação vocal e a colocação da voz indicam um cuidado especial de Marina com seu instrumento natural, tornando-o expressivo em cada verso e em cada respiração. O resultado é nos deixar ouvir a voz como quem usa um instrumento de verdade: com intenção, com fragilidade calculada, com a coragem de não ser perfeita.

Fusões sonoras e coerência estética

Se você prestar atenção vai ouvir uma fusão interessante entre elementos acústicos — violões, vozes, instrumentos de sopro — e experimentação eletrônica coordenada pelo sound design de Lucas Ferrari. Não se trata de justaposição forçada, mas de integração orgânica que cria texturas sonoras contemporâneas. Violões acústicos conversam com eletrônicos que foram modelados com cuidado artesanal. É essa ponte entre o orgânico e o eletrônico, construída sem pedir licença para nenhum dos dois lados, que confere ao álbum sua identidade sonora particular.

Se você prestar atenção, vai perceber que Marina Melo demonstra maturidade artística ao equilibrar intimismo lírico com experimentação sonora, criando um trabalho que dialoga com a MPB autoral paulistana de sempre enquanto incorpora elementos contemporâneos. A produção de Luiza Brina parece fundamental para construir essa ponte, mediando entre a calidez acústica e a frieza calculada dos processamentos eletrônicos.

O título como manifesto

Se você prestar atenção vai entender que “Ousar Abrir” se destaca pela coerência entre conceito e execução. O título funciona como manifesto: a abertura está presente tanto no processo criativo colaborativo quanto na proposta estética do disco. Abrir as portas das casas para gravar. Abrir-se para colaborações genuínas. Abrir a forma-canção para texturas experimentais. Abrir o ouvido — como a própria Marina sugere — para uma escuta que exige disponibilidade.

É um disco que pede escuta atenta, que se recusa a funcionar como trilha sonora passiva. Pede aquela disponibilidade que a gente tinha nas tardes sem compromisso, quando a música chegava devagar e ficava. Em tempos de consumo acelerado e playlists algorítmicas, essa recusa em facilitar é, em si, um posicionamento estético.

Atmosfera e coragem

Se você prestar atenção, vai sacar que São Paulo continua produzindo artistas assim, que não fazem barulho mas deixam marca. Marina Melo se insere numa cena criativa vibrante, revelada pelas parcerias do disco, mas mantém voz própria. Seu trabalho sugere caminhos possíveis para a MPB contemporânea: menos preocupada com a grandiloquência, mais interessada na construção de atmosferas; menos dependente de estruturas industriais, mais apoiada em redes colaborativas; menos ansiosa por definições, mais aberta a atravessamentos sonoros.

Se você prestar atenção, vai compreender que “Ousar Abrir” é, afinal, um álbum sobre coragem. Não a coragem espalhafatosa das rupturas radicais, mas a coragem silenciosa de fazer música com delicadeza, de valorizar o processo tanto quanto o resultado, de acreditar que a arte pode ser forte justamente quando se permite ser íntima. Quando tem a ousadia de não gritar.

Se você prestar atenção…

Para ouvir “Ousar Abrir”:

Para ver e ouvir Marina Melo:

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