Da Redação
Três PMs vão a julgamento popular pela execução do delator Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, morto a tiros no Aeroporto de Guarulhos em 2024; defesa nega participação no crime
Começa nesta segunda-feira, 22, o julgamento de três policiais militares acusados de matar Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator do PCC executado a tiros de fuzil no Aeroporto Internacional de Guarulhos em novembro de 2024. Gritzbach tinha 38 anos e era investigado por lavagem de dinheiro para a facção criminosa, mas vinha colaborando com o Ministério Público de São Paulo em uma investigação considerada uma das mais importantes contra o crime organizado nos últimos anos.
O ataque, marcado por forte uso de armamento pesado, também matou Celso Araújo Sampaio de Novais, motorista de aplicativo de 41 anos que foi atingido nas costas enquanto estava no terminal do aeroporto.
Quem são os réus
Respondem pelo crime o soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins, apontados como os autores dos disparos, além do tenente Fernando Genauro da Silva, acusado de dirigir o carro que levou a dupla até o aeroporto. Os três estão presos no Presídio Militar Romão Gomes e enfrentam acusações de dois homicídios consumados e duas tentativas de homicídio, já que outras duas pessoas ficaram feridas no ataque.
Se condenados, os policiais podem somar uma pena mínima de 51 anos de prisão, sendo 21 anos referentes apenas à morte de Gritzbach. A defesa dos réus afirma que eles são inocentes e que as provas reunidas pela investigação não são suficientes para sustentar uma condenação.
Como funciona o julgamento
O caso será analisado por sete jurados, escolhidos a partir de uma lista em que acusação e defesa podem recusar até três nomes cada, sem necessidade de justificativa. Ao final, cada jurado deve responder, individualmente, a 30 quesitos referentes a cada um dos réus — o que soma 90 perguntas no total.
A sessão deve durar uma semana, terminando na próxima sexta-feira, 26 de junho. Ao todo, 21 testemunhas foram convocadas, entre elas policiais, peritos e a delegada Luciana Peixoto, responsável pelo inquérito conduzido pelo Departamento de Homicídios da Polícia Civil. As provas incluem dados de celular com localização dos acusados, exames de DNA e uma tatuagem que ajudou a identificar um dos suspeitos.
Por que Gritzbach foi morto
Segundo a Justiça, Gritzbach atuava no mercado imobiliário e foi recrutado pelo PCC para administrar dinheiro da facção, comprando imóveis em nome de terceiros e investindo recursos do tráfico em criptomoedas. O esquema começou a gerar desconfiança entre membros da organização, que passaram a suspeitar que ele estava desviando parte dos valores para uso próprio.
Antes de ser delator, Gritzbach teria contratado um matador para eliminar dois homens ligados ao PCC, em dezembro de 2021. O executor do crime foi capturado pela facção, julgado em um chamado “tribunal do crime” e morto. Gritzbach também passou a ser ameaçado, mas conseguiu escapar de duas tentativas anteriores de assassinato antes de ser executado no aeroporto de Guarulhos.
A delação que custou a vida do empresário
O acordo de colaboração de Gritzbach com o Ministério Público foi formalizado em abril de 2024. Na ocasião, ele admitiu participação em lavagem de dinheiro e revelou informações sobre corrupção policial e sobre a atuação interna do PCC. Como represália, a facção teria oferecido uma recompensa de R$ 3 milhões para quem o matasse.
Dois supostos mandantes do crime, identificados como Cigarreira e Didi, e um possível vigia chamado Kauê do Amaral Coelho continuam foragidos e ainda não têm data prevista para julgamento. Segundo o Ministério Público, a definição de uma data depende do andamento dos recursos apresentados pela defesa desses três investigados.
PMs já foram condenados por escolta irregular
Em dezembro do ano passado, a Justiça Militar condenou 11 dos 15 policiais acusados de prestar segurança particular irregular para Gritzbach, prática proibida pelo regulamento da corporação. As penas variaram entre 5 anos e três meses e 7 anos e cinco meses de reclusão, em regime semiaberto.
No dia do assassinato, quatro PMs faziam a segurança de Gritzbach, mas um problema mecânico em um dos veículos de apoio fez com que apenas um deles seguisse com o filho do empresário, então com 11 anos, até o aeroporto — o que levantou suspeitas sobre uma possível falha proposital no esquema de proteção.