Da Redação
O Brasil enfrenta uma crise de insegurança que vai além dos índices de crimes — e que já projeta sombras sobre as eleições de 2026.
Andar pela rua com o celular no bolso, sair à noite ou simplesmente circular por certas ruas do bairro. Para a maioria dos brasileiros, esses gestos simples do cotidiano carregam uma dose de cálculo e medo. Uma pesquisa ampla sobre percepção de segurança pública, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Datafolha revela que 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm receio de pelo menos uma situação de violência — um número que praticamente iguala o medo ao universo total da população adulta do país.
Mais do que estatística, esse dado retrata uma sociedade que aprendeu a conviver com a ameaça constante, ajustando rotinas, trajetos e hábitos de consumo para reduzir riscos. O crime organizado, nesse cenário, deixou de ser uma abstração distante e passou a ser vizinho de quase metade dos moradores das grandes cidades brasileiras.
Crime organizado: perto de casa e cada vez mais visível
Dos brasileiros adultos, 41,2% — o equivalente a 68,7 milhões de pessoas — afirmam reconhecer a presença de grupos criminosos no bairro onde moram. Esse percentual sobe de forma expressiva nas metrópoles: chega a 55,9% nas capitais e a 46,0% nas regiões metropolitanas, recuando para 34,1% no interior.
Não se trata apenas de saber que esses grupos existem. Quase metade dos que percebem essa presença (46,4%) classifica esses grupos como visíveis ou muito visíveis — o que representa cerca de 31,9 milhões de pessoas. Mais revelador ainda: 61,4% avaliam que o crime organizado exerce influência forte ou moderada sobre a vida do bairro, interferindo em regras não escritas de convivência, horários de circulação e até na dinâmica comercial local.
O medo que paralisa e os números que assustam
A lista dos medos mais comuns entre os brasileiros revela muito sobre o país real. O golpe na internet ou pelo celular lidera com 83,2%, seguido de roubo à mão armada (82,3%), morte durante assalto (80,7%), furto de celular (78,8%) e bala perdida (77,5%). A invasão de residência (76,1%) e o risco de assassinato (75,1%) completam o topo da lista.
Esses medos não são apenas sentimentos abstratos. Nos últimos 12 meses, 40,1% dos brasileiros — 66,8 milhões de pessoas — vivenciaram alguma situação de violência. Os golpes pela internet (15,8%) e a morte de familiares (13,1%) figuram entre as experiências mais comuns. A violência, portanto, não é só temida: ela é vivida.
Desigualdades que o crime aprofunda
O medo não é democrático. Mulheres relatam uma insegurança mais ampla e intensa, que inclui violência sexual, doméstica e restrições à mobilidade — medo de sair sozinhas, de certos horários, de determinados espaços. A desigualdade racial também se impõe nos dados: a população negra registra maior medo de violência letal e maiores índices de vitimização, especialmente em homicídios e crimes patrimoniais.
A renda também divide o mapa do medo. Pessoas das classes D e E temem mais a violência interpessoal — assaltos, agressões, confrontos físicos. Já as classes A e B concentram suas preocupações nos crimes financeiros e digitais: fraudes, golpes, estelionato. Diferentes Brasis, ameaçados por diferentes faces do mesmo problema.
Bairros com crime organizado concentram mais vítimas
Morar em um bairro com presença de grupos criminosos torna o morador mais vulnerável. A taxa de vitimização nesses territórios chega a 51,1%, contra 40,1% na média nacional — uma diferença de 11 pontos percentuais. Os aumentos abrangem desde golpes financeiros até perdas materiais e violência letal, com variações entre 4 e 11 pontos percentuais acima da média, dependendo do tipo de crime.
Esse dado é central para entender como o crime organizado deixa de ser um problema policial e se torna um problema social amplo: ele corrói a qualidade de vida, eleva o custo emocional de viver em certas regiões e aprofunda as desigualdades já existentes no território urbano.
A rotina reescrita pelo medo
O sentimento de insegurança produz comportamentos concretos. Três em cada dez brasileiros mudaram seu percurso habitual (36,5%), deixaram de sair à noite (35,6%) ou passaram a sair sem o celular (33,5%). Outros 26,8% deixaram de usar acessórios ao circular pelas ruas, e 22,5% evitaram adquirir bens para não atrair a atenção de criminosos.
Essas escolhas individuais, multiplicadas por dezenas de milhões de pessoas, têm efeitos que transcendem o bem-estar subjetivo. Elas afetam o consumo, a economia local, a circulação urbana e a sensação coletiva de normalidade. Uma cidade onde as pessoas não saem à noite é uma cidade que perde parte de sua vitalidade econômica e social.
Insegurança como pauta eleitoral em 2026
Com números tão expressivos, a segurança pública chega às eleições de 2026 como uma das questões centrais do debate político. O medo de 81,0% dos brasileiros de confrontos armados, represálias ou de ver familiares envolvidos com o tráfico não é apenas um dado epidemiológico — é um estado de alerta permanente que molda percepções, prioridades e escolhas eleitorais.
Candidatos e partidos que souberem traduzir esse sentimento difuso em propostas concretas e críveis terão uma vantagem significativa junto ao eleitorado. O Brasil que vai às urnas em 2026 é, em larga medida, um país com medo — e que espera respostas à altura dessa realidade.