Da Redação
Decisão do Supremo impõe restrições a dez investigados, incluindo o parlamentar baiano, suspeito de receber apartamento de R$ 2,45 milhões, passagens em jatinho e pagamentos a empresa da família em troca de favorecimentos legislativos
A nona fase da Operação Compliance Zero foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) com base em indícios de que o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria recebido vantagens econômicas indevidas de gestores do Banco Master, entre eles Augusto Ferreira Lima e Daniel Bueno Vorcaro. A decisão, assinada pelo relator do caso Master no STF impõe uma série de medidas cautelares a dez investigados e aponta para um esquema que misturaria benefícios pessoais com atuação parlamentar favorável ao banco.
O que diz a investigação
A Polícia Federal sustenta que a relação entre Wagner e Augusto Lima seria antiga e marcada por elevada confiança pessoal — ambiente que, segundo os investigadores, teria sido aproveitado para tratativas reservadas em benefício do Banco Master. Os elementos reunidos incluem mensagens de celular, áudios, registros de chamadas, documentos contratuais e comprovantes de transferências bancárias extraídos de aparelhos apreendidos em fases anteriores da operação.
A investigação se organiza em três frentes principais: o suposto recebimento de um apartamento de luxo em Salvador, pagamentos milionários a uma empresa ligada à família do senador e atuação parlamentar em temas de interesse direto do banco.
O apartamento de R$ 2,45 milhões
O episódio mais grave, na avaliação da autoridade policial, envolve o apartamento nº 1.702 do empreendimento Poème Horto, em Salvador (BA), avaliado em R$ 2,45 milhões. Segundo a PF, em novembro de 2024, Wagner enviou a Augusto Lima o contato do gerente da construtora Moura Dubeux, o número da unidade e o preço. No dia seguinte, Lima repassou essas informações a um operador financeiro identificado como “Valério Fundos”, dando início à cadeia de aquisição do imóvel.
A compra teria sido formalizada pela empresa Epítome S.A., com recursos provenientes de fundos ligados ao grupo investigado — dinâmica que a PF interpreta como ocultação do verdadeiro beneficiário. Meses depois, em maio de 2025, já com a operação deflagrada, o próprio filho do senador teria pedido ao pai os dados do “proprietário formal” do imóvel para emissão de registro técnico de arquitetura. Wagner teria então pedido essa informação diretamente a Augusto Lima, que repassou o contato de um dos operadores envolvidos na aquisição.
Voos em jatinho e ingressos no exterior
Além do apartamento, a investigação aponta benefícios considerados mais laterais, mas que demonstrariam a proximidade entre o senador e o banqueiro. Em outubro de 2023, Lima teria disponibilizado uma aeronave particular para que Wagner e familiares viajassem até a chamada “Ilha da Paixão”, de propriedade do executivo. Em outra ocasião, o senador teria pedido a Lima o contato de um piloto para ir ao Rio de Janeiro.
Há também o registro de ingressos para um show de cantora internacional em Los Angeles, adquiridos pela empresa Reag Investimentos S.A. por R$ 63.339,00 a pedido de Lima, em benefício de familiares de Wagner. Em novembro de 2023, o senador solicitou os arquivos dos ingressos para camarote e, posteriormente, pediu ampliação para cinco entradas.
Pagamentos milionários à empresa da família
O segundo eixo da investigação gira em torno da BN Financeira Ltda., empresa associada ao núcleo familiar de Wagner. A PF identificou diálogos em que Eduardo Mendonça Sodré Martins — enteado do senador — teria cobrado Augusto Lima por pagamentos pendentes, mencionando boletos vencendo e notas fiscais a serem emitidas. Lima teria justificado os atrasos com o fracasso da negociação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).
Em outubro de 2025, uma transferência de R$ 3,5 milhões foi feita à BN Financeira pela PKL One Participações S.A., empresa vinculada ao próprio Augusto Lima. Planilhas encontradas no celular de outro investigado registram ainda pagamentos superiores a R$ 2,34 milhões a uma pessoa identificada pelo apelido “Dudu” — que a PF associa ao enteado do senador.
Atuação parlamentar suspeita
O terceiro eixo une as vantagens econômicas à atividade do senador no Congresso. A PF aponta que Wagner teria atuado em pelo menos três frentes legislativas de interesse direto do Banco Master: a ampliação do crédito consignado para trabalhadores celetistas, aposentados e beneficiários de programas sociais; a tentativa de aprovação de uma emenda constitucional que impactaria o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC); e iniciativas parlamentares para fiscalizar a operação de aquisição do Master pelo BRB.
No caso do FGC, a PF descreve uma sequência de contatos entre executivos do banco, o chefe de gabinete de Wagner e o próprio senador no dia em que a emenda foi incluída na pauta — 13 de agosto de 2024. Augusto Lima teria ligado para Wagner naquele dia, com chamada de quase dez minutos, e enviado o link da emenda em seguida. Uma mensagem de Lima ao senador, datada de março de 2025, reforça a tese dos investigadores: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”, escreveu o banqueiro.
As restrições impostas pelo relator
Com base nesses elementos, o ministro André Mendonça determinou uma série de medidas cautelares. Wagner foi proibido de contatar os demais investigados, de se aproximar de pessoas ligadas ao empreendimento Poème Horto e de atuar em negócios com as empresas mencionadas na investigação. O senador não teve o passaporte suspenso — medida que a PF não chegou a pedir em relação a ele.
Para Augusto Lima, as restrições são mais severas: monitoração eletrônica, proibição de contatos, suspensão do passaporte e impedimento de saída do país. Os demais investigados — entre eles Eduardo Sodré Martins, sua esposa Bonnie Toaldo Bonilha, o pai Guilherme Sodré Martins e os operadores Valério Marega Júnior, David Lopes Monteiro e Daniel Lopes Monteiro — também receberam medidas de restrição de contato, de movimentação e de atuação negocial. Três empresas tiveram suas atividades suspensas: a BN Financeira Ltda., a BN Representações Tecnológicas Ltda. e a Epítome S.A.